Introdução

Sobre Rebes e histórias


Já eram duas da madrugada. O mestre chassídico e os seus jovens discípulos tinham passado juntos muitas horas, conversando profundamente e comentando as coisas não tão sérias da vida, em volta de uma mesa comprida, num farbrenguen. Como costuma acontecer, as formalidades da parte inicial dessa reunião já estavam se dissolvendo. O ritmo das melodias entoadas pelo grupo foi ficando imperceptivelmente mais lento, profundo e intenso. Também o tom dos debates foi mudando, da teoria, para um enfoque mais pessoal.
Reb Yoel Kahan, o chassid mais idoso, líder da reunião, voltou-se para um dos seus alunos e perguntou, suavemente: “E então, Yossel? Quantos Rebes você tem?”
O aluno ficou perplexo. Sem diminuir a importância de quaisquer outros tsadikim, é obrigatório, em qualquer grupo chassídico, que cada chassid tenha um Rebe, um guia espiritual escolhido por ele mesmo, para orientar o seu crescimento judaico.
Após uma pausa para deixar que a sua pergunta fizesse o efeito desejado, Reb Yoel prosseguiu: “O Rebe é um sábio rabínico por excelência; vejam os seus estudos do Talmude. Ele é aclamado como mestre das gerações em nistar, a dimensão mística do estudo da Torá. Ele introduziu uma nova perspectiva no estudo de Rashi, mostrando de que modo os seus comentários refletem o significado simples da Torá. É a ele que dezenas de milhares se dirigem à procura de uma bênção, quando precisam, e um líder que assume posição nos assuntos políticos, em Eretz Yisrael e no mundo. E podemos dar muitos exemplos mais. Agora, digam-me, quantos Rebeim vocês têm?”
“Vocês consideram todas essas qualidades como sendo distintas? Ou podem perceber algo mais profundo, uma espécie de impulso abrangente que une todas essas dimensões diferentes? Vocês visualizam todas as diversas realizações do Rebe como o reflexo de um todo singular?”

Com a percepção de Reb Yoel em mente, as histórias relatadas neste livro revelam uma imagem multidimensional da liderança do Rebe, mostrando muitas perspectivas diferentes da sua personalidade. Todavia, também é nossa intenção comunicar algo mais, além do simplesmente dito, fazer os nossos leitores se conscientizarem do impulso geral que permeia todas essas narrativas diferentes.
O fato de dar um enfoque único a qualquer um dos aspectos particulares da personalidade do Rebe, por exemplo, os milagres que ele opera, os conselhos que dá às pessoas, a sua sabedoria, estreitam – e deste modo, distorcem – a imagem do Rebe que todos nós temos.
Toda pessoa que tenha desenvolvido um relacionamento com o Rebe tem a sua própria maneira de falar dele. Mas também, toda pessoa também percebe que o seu ponto de vista é apenas limitado, e que há algo muito maior a respeito do Rebe, que ela não consegue descrever. Não obstante, vendo-se uma variedade dessas perspectivas pessoais, é possível desenvolver uma sensibildade mais acentuada, que corresponda ao que esta dimensão maior realmente é.
Em nossa opinião, as histórias expressam melhor tudo isso. Histórias têm vida. Por oposição a uma biografia, que em muitos casos pode representar uma perspectiva acadêmica da vida de uma pessoa, nos contos, de suas reações às pessoas e circunstâncias da sua vida emana vitalidade. Além disso, as biografias contêm conclusões explícitas ou implícitas; as histórias deixam o leitor à vontade para extrair as suas próprias conclusões.
Contar histórias é uma prática chassídica de longa data. Os Rebeim de Chabad costumavam referir-se aos contos chassídicos como a Torá Shebichtav (a Lei Escrita) da Chassidut. Essa denominação é significativa, pois os contos chassídicos, assim como os relatos dos Patriarcas, Moisés e os outros heróis do Tanach, são a “Torá viva”, expressões de verdade Divina infinita. Outrossim, essas verdades não são expressas sob a forma de princípios teóricos, mas como eventos acontecendo dentro do marco da vida real, da experiência do dia a dia.
Neste espírito, é freqüente ouvir a pergunta: Por que o Talmude não inclui um tratado dedicado ao tema do amor e do temor a D-us? Os Chassidim responderiam que isto é desnecessário. Os tsadikim, os dignos sábios de cada geração, nos proporcionam em primeira mão, a experiência dessas qualidades, e assim, não há necessidade de recorrermos a um tratamento meramente acadêmico do tema.
Da mesma forma, nossos sábios observam (Berachot 7b) que o profeta Elisha é elogiado por “derramar água sobre as mãos de Elias” (Reis II 3:11), e explicam que compartilhar do dia a dia de um sábio é algo ainda mais instrutivo do que estudar com ele. Pois é vendo a reação de um líder da Torá às experiências da vida real, que podemos sondar a sua profundidade mais interna, e valorizar a direção e o objetivo que ele imprime às outras pessoas. Esta espécie de percepção é compartilhada através de histórias.

** **

O Rebe de Kotzk costumava dizer: “Todo aquele que acredita que todas as histórias atribuídas ao Baal Shem Tov realmente aconteceram, é um tolo. Ao mesmo tempo, quem acha impossível que alguma delas tenha acontecido, é uma pessoa sem fé, pois nada há que esteja além do potencial de um tsadik”.

Em outras palavras, há incoerências e contradições entre uma história sobre o Baal Shem Tov e outras, de modo que é impossível que todas elas tinham acontecido realmente. Contudo, cada uma delas, não importa a maravilha dos milagres nelas contidos, podia ter acontecido. Pois um tsadik é capaz, de maneira singular, de revelar um nível de espiritualidade que transcende à ordem natural.
O adágio acima pode ser aplicado não somente às histórias sobre o Baal Shem Tov, mas também àquelas que envolvem os seus herdeiros espirituais, os Rebeim (Rabis) chassídicos, que continuaram esta tradição, até os dias de hoje. Como esses relatos foram transmitidos oralmente, em sua grande maioria, alguns detalhes poderiam ter sido embelezados ou omitidos por um dos narradores, ou esquecidos por um ouvinte. Contudo, o germe de cada história, a mensagem espiritual que ela tencionava transmitir, permaneceu intacto.
Em relação às histórias reproduzidas nesta série, esforçamo-nos em diminuir ao mínimo o número de inexatidões, na tentativa de apresentar os detalhes, como realmente aconteceram. Neste intuito, tentamos verificar esses detalhes com as pessoas envolvidas, ou pelo menos, com aquelas que ouviram as estórias, como foram contadas.
Todavia, quando foi impossível entrar em contato com os ouvintes de primeira mão, em alguns casos, precisamos confiar em narrações de segunda e até de terceira mão; portanto, é possível que pequenas inexatidões estejam presentes nas narrativas.

** **

Em alguns círculos, as narrativas chassídicas são consideradas como pertencentes a alguma época da História. Sim, coisas desse tipo costumavam acontecer, mas só no passado. Na tradição do Movimento Chabad-Lubavitch atual, a divulgação dos contos chassídicos é, e sempre foi, uma fusão de passado e presente, porque sempre há novas histórias chassídicas acontecendo. A publicação desta coleção tem o objetivo de reforçar este conceito de atividade em curso, pois histórias mostram vida, e um dos sinais da vida é o crescimento, o movimento constante.
Isto, é claro, não pretende ser uma coleção completa das histórias que se contam sobre o Rebe. Seria impossível, porque, como dissemos acima, sempre há novos casos acontecendo, e além disso, o número de histórias relativas ao Rebe poderia preencher muitos volumes do tamanho deste. Escolhemos essas, porque achamos que elas contêm uma lição, ou diretriz, que o leitor poderá aplicar em seu serviço a D-us.

13 de Tishrei, 5754

Eliyahu Touger


voltar