Amores Impossíveis

Estamos iniciando uma nova coluna, com a tradução do livro “Amores impossíveis”, do Rabino Eliezer Shemtov, do Uruguai, já publicado em inglês e espanhol. Publicaremos um parágrafo a cada semana, e no final, se D’us quiser, o livro inteiro.

O livro é um diálogo entre o rabino e um tal de Juan (não-judeu), e trata do problema do casamento misto. “Cada vez que isso ocorre provoca um enfraquecimento na cadeia milenar do povo judeu”, escreve o autor.

Por favor, sinta-se à vontade para nos enviar os seus comentários.

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O DIÁLOGO COM JUAN

 

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia


Caro Rabino Shemtov:

        Meu nome é Juan García e, como o senhor pode perceber, infelizmente não tenho a honra de ser judeu. Gostaria de lhe perguntar algo com a maior sinceridade, e espero que o senhor me responda.

        Tenho vinte e seis anos de idade, e há um ano tive a grande sorte de conhecer uma moça judia, cujo nome eu prefiro não revelar. Ela tem uma formação judaica forte, e hoje é a luz da minha vida.

        O senhor certamente deve estar imaginando aonde tudo isso vai levar. Na casa dela há uma crescente crise familiar por causa do goy com o qual a filha está namorando. É óbvio que os pais dela nunca me conheceram e tampouco expressaram qualquer desejo de fazê-lo.

No início não entendi o motivo disso tudo, embora um dos meus melhores amigos, desde a minha infância e até hoje, seja judeu. Nunca percebi a existência de uma rejeição tão grande com relação aos gentios quando judeus namoram não-judeus. Estou bastante familiarizado com a teoria segundo a qual casamentos mistos devem ser evitados a fim de combater a assimilação. Parece-me, no entanto, que não se trata somente disso. Em famílias judaicas como a dela, em que a religião não é a maior das preocupações, é mais uma questão do constrangimento pelo qual a mãe passa no cabeleireiro do que a preocupação com os perigos da assimilação.

        Recentemente, os avós dela tomaram conhecimento do nosso namoro e a mãe — ao ver o horror do avô — tentou convencê-lo de que o nosso relacionamento não era nada sério. Ele não conseguia aceitar o fato de que sua neta namorava um gentio. Uma das frases que o avô disse foi: “A goishe iz a goishe”. Perdoe o meu iídiche, mas o senhor sabe o que isso significa. O que eu pensava que fosse simplesmente uma propensão contra casamentos mistos revelou-se como um claro ato de intolerância. 

        O senhor percebe? A sua religião, que merece o maior respeito de minha parte, que sempre se conduziu com sabedoria, acaba se professando contra a tolerância que sempre foi uma insígnia em sua bandeira.

        Depois de viver pessoalmente esse problema, descobri muitos outros casos semelhantes. Famílias que deserdaram seus filhos ou filhas ou, o que é ainda pior, colocaram-nos num avião para Israel, para que nunca mais vissem seus namorados ou namoradas gentios. Isso me demonstra que não se trata do problema de uma minoria, nem tampouco de um incidente isolado.

        Espero que o senhor consiga compreender a minha aflição e não pense que sou um anti-semita, pois para mim está bastante claro: se D’us decidiu colocar a mais bela mulher do mundo no meu caminho, é óbvio que Ele a tomou do Seu povo eleito.

        O senhor poderia esclarecer o meu ponto de vista, se é que ele realmente está confuso?

Talvez as suas palavras me ajudem a compreender.

 

O DIÁLOGO COM JUAN

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 25 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Caro Juan:

Obrigado por seu e-mail e pela sinceridade e transparência com que você o escreveu.Tentarei responder da mesma forma.

        Compreendo muito bem a sua frustração. Você tem diante de si — ou ao seu lado — uma mulher a quem ama e com a qual gostaria de compartilhar o resto de sua vida.

        Você percebe que querem tirá-la de você por motivos injustificados [“O que dirão no cabeleireiro...”].

Não parece correto de minha parte defender a posição e as atitudes de uma família que não conheço, e cujos argumentos não ouvi. Tudo o que posso fazer é falar com você sobre o tema a partir do meu ponto de vista, e não como porta-voz deles.

        Concordo com você que o amor é um dos fatores mais importantes que determinam com quem você irá se casar. Porém, é óbvio que não é o único. Imagine se você descobrisse que a mulher dos seus sonhos é na verdade sua irmã biológica; você se casaria com ela?

        A Torá define claramente com quem um judeu pode se casar e com quem não pode. Para que o casamento exista — não há casamento entre irmãos biológicos, embora fisicamente possam até procriar — devem existir  as condições que D’us estipulou. É evidente que não pode haver um casamento entre duas pessoas cuja união não seja aceita  pela Torá.

        Em minha opinião, você deve distinguir entre critérios objetivos (o que diz a Torá) e subjetivos (o que diz a família dela). Posso entender que você se sinta desiludido e magoado pela aparente hipocrisia de pessoas que não praticam o Judaísmo em sua vida pessoal e, de repente, se opõem a que sua filha se case com alguém simplesmente pelo fato de ele não ser judeu. Seus futuros filhos, entretanto, não têm culpa disso. Você tampouco deveria tomar decisões com base em atitudes, aparentemente incoerentes, dos pais dela. Vou lhe dizer ainda mais: mesmo que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...

        Acredite-me, entendo muito bem o inferno pelo qual você deve estar passando. Não é nada fácil. Mas gostaria de lhe dizer uma coisa: O caminho da Torá é o caminho da paz e da verdade. A violação das leis da Torá não traz, no final das contas, nenhuma bênção, se bem que isso seja muito difícil de aceitar no início. Por outro lado, fazer o que D’us quer, mesmo que exija muito sacrifício, lhe trará bênçãos verdadeiras, infinitas e eternas...

        Se você quiser conversar comigo pessoalmente para discutir mais amplamente esse tema, terei muito prazer em encontrá-lo. Estou interessado em protegê-lo — a você e a ela — para que não dê um passo em falso por falta de conhecimento ou como reação a atitudes que parecem injustas...

Um abraço,

Eliezer

P.S. Publiquei um artigo sobre casamentos mistos. Se você estiver interessado, avise-me e eu lhe enviarei um exemplar com muito prazer

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Eliezer:

        Muito obrigado por ter respondido o meu e-mail. Agradeço-lhe de todo o coração. Os pontos apresentados são de fato verdadeiros, porém se baseiam, obviamente, nos cânones de uma religião que não é a minha.

        Seria realmente agradável que conversássemos pessoalmente em algum momento.

        Muito obrigado. É claro que estou interessado em ler o material que você publicou sobre esse tema.

        Um forte abraço,

Juan

P.S. O que você quis dizer ao afirmar que meus filhos não têm culpa? Entendo que você esteja se referindo ao futuro, mas não compreendo por que eles deveriam sofrer.   

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Caro Juan:

Obrigado por sua resposta. Você escreve:
                   Os pontos apresentados são de fato verdadeiros, porém se baseiam, obviamente, nos cânones de uma religião que não é a minha.

        Essa é uma observação válida. No entanto, você deve levar várias coisas em consideração:

  1. A moça pela qual você se apaixonou também pertence a uma religião que não é a sua... E mesmo que ela não a respeite, ao se casarem, você na verdade estaria fazendo com que ela violasse sua própria religião e as leis do seu povo. Você acha que alguém que realmente ame outra pessoa a levaria a trair o seu próprio povo e também D’us?

  2. Meu argumento inicial não tinha a intenção de convencê-lo do que você deve fazer, mas explicar por que não se trata aqui de uma questão de discriminação pessoal e sim uma regulamentação bíblica.

  3. No seu primeiro e-mail você escreveu sobre D’us e o povo eleito. Entendi a partir disso que você aceita a Bíblia como um ponto de referência válido. Se for válido o suficiente quando se trata de definir a moça como parte do “povo eleito”, por que deixaria de ser válido quando lhe diz que você não pode se casar com ela?
Seria realmente bom que conversássemos pessoalmente em algum momento. Quando quiser. Você pode vir sozinho ou com a jovem.

          Um forte abraço.

        Igualmente

         P.S. O que você quis dizer ao afirmar que “meus filhos não têm culpa?” Entendo que você esteja se referindo ao futuro, mas não compreendo por que eles deveriam sofrer.      

        Você acha que é saudável para um filho crescer num ambiente em que os pais pertençam a religiões diferentes? Como você o educará? Como um judeu? Como um gentio? Como um “neutro”? Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu”? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?

        Em resumo: Todos os argumentos lógicos que alguém possa apresentar contra casamentos mistos poderão ser refutados por outros argumentos a favor. O único argumento que, em minha opinião, é irrefutável é que D’us os proibiu expressamente. Tudo o mais é apenas comentário...

         Eliezer

 

O DIÁLOGO COM JUAN
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 29 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Caro Eliezer:

        Muito obrigado pelo tempo que você está me dedicando. Tento extrair o máximo possível de suas palavras.

Gostaria muito que você me enviasse o seu artigo por e-mail.

        Tenho algumas dúvidas a respeito do que você escreveu no primeiro e-mail. Você afirmou: “... Ainda que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...”

        Mesmo não sendo um cristão praticante, recebi uma educação cristã num colégio católico, e conheço a minha Bíblia muito bem. Não me lembro de nenhum trecho que defina com quem posso me casar. É claro que nenhuma igreja reconheceria o meu casamento com uma moça que não tivesse sido batizada, mas isso pode ser solucionado. No caso do Judaísmo, entretanto, de acordo com o que você afirma, eu não resolveria a questão ao me converter, porque a sua frase seguinte (com relação aos meus futuros filhos) ainda seria válida: Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?...”

        Creio que eu deveria ter feito uma pergunta antes: Você acredita em conversão? Você acha que se deve esperar que eu mude todas as minhas crenças de uma hora para outra?

        Bom, não quero tomar mais seu tempo. Novamente, muito obrigado pela grande quantidade dele que você dedica às minhas dúvidas e inquietações.

        Um forte abraço,

        Juan

        P.S. Que sobrenome importante você tem! Por acaso você tem a honra de ser descendente direto do “Dono do Bom Nome” — Baal Shem Tov (Israel Ben Eliezer)?

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 29 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Caro Juan:

        Gostaria muito que você me enviasse o seu artigo por e-mail.

        Eu o enviarei mais tarde, se D’us quiser... Tenho que encontrar o arquivo... Talvez seja melhor que eu lhe envie uma cópia impressa...

         Tenho algumas dúvidas a respeito do que você escreveu no primeiro e-mail. Você afirmou: “... Ainda que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...”

                   Mesmo não sendo um cristão praticante, recebi uma educação cristã num colégio católico, e conheço a minha Bíblia muito bem. Não me lembro de nenhum trecho que defina com quem posso me casar.            

                Leia Deuteronômio 7:3-4: “E não te aparentarás com elas; tua filha não darás a seu filho e sua filha não tomarás para teu filho”.

         É claro que nenhuma igreja reconheceria o meu casamento com uma moça que não tivesse sido batizada, mas isso pode ser solucionado. No caso do Judaísmo, entretanto, de acordo com o que você afirma, eu não resolveria a questão ao me converter, porque a sua frase seguinte (com relação aos meus futuros filhos) ainda seria válida: Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?...”

          Creio que eu deveria ter feito uma pergunta antes: Você acredita em conversão? Você acha que se deve esperar que eu mude todas as minhas crenças de uma hora para outra?

        O Judaísmo aceita como judeu qualquer homem ou mulher nascido de mãe não-judia se passar por um processo de guiyur, ou seja, conversão. A conversão ao Judaísmo consiste em fazer exatamente o mesmo que fez o Povo Judeu a fim de tornar-se judeu: 1) Brit Milá (circuncisão); 2) Imersão em um micvê (piscina de imersão ritual); 3) Aceitação do cumprimento das 613 mitsvót (preceitos) da Torá em sua totalidade. Tudo isso deve ser feito na presença de um Tribunal Rabínico válido.

        No que diz respeito a você, ninguém lhe pede para mudar suas crenças. O que motiva uma pessoa a se converter ao Judaísmo é justamente o seu desejo de dar plena expressão às suas crenças, e não de mudá-las.

          Bom, não quero tomar mais seu tempo. Novamente, muito obrigado pela grande quantidade dele que você dedica às minhas dúvidas e inquietações.

                De nada.

        Um forte abraço.

        Para você também.

        P.S. Que sobrenome importante você tem! Por acaso você tem a honra de ser descendente direto do “Dono do Bom Nome” — Baal Shem Tov (Israel Ben Eliezer)?

        Não, pelo que sei...

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 02 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Eliezer:

                Retomando esse contato interessante:

        Como vai? Espero que tudo esteja bem. Alguns trechos no seu último e-mail me parecem muito interessantes.

        Você tem razão no que se refere ao trecho bíblico que proíbe um judeu de se casar com um não-judeu. Isso está bem claro. Há, porém, algo que não entendo. Compreendo que aquele que não cumpre os preceitos de D’us deve ser considerado um pecador. Portanto, aquele que permite que sua filha se case com um não- judeu, é um pecador. “Tua filha não darás a seu filho...”, certo?

        Por outro lado, já que a família da minha namorada não cumpre sequer um décimo dos preceitos da Torá, por que deveria cumprir o preceito que proíbe sua filha de se casar comigo?  Se não permite o nosso casamento, mas no shabat viaja de carro para um churrasco, qual a lógica?

        Acho que desta vez exagerei na quantidade de perguntas. Minhas desculpas. Se você não puder respondê-las, não se preocupe. Eu entenderei.

        Saudações,

        Juan

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 03 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
        

Juan:

        Antes de tudo, gostaria de lhe dizer que, no que se refere a mim, você nunca exagerará em perguntas que são feitas com o objetivo de aprender. Portanto, vá em frente!

        Quanto à contradição entre o não cumprimento dos preceitos  por parte da família da sua namorada e a insistência em cumprir o preceito de não permitir que sua filha se case com um não-judeu, não posso falar em nome deles, como já lhe disse no início do nosso diálogo. Tudo o que posso dizer é que ninguém é perfeito: Há pessoas mais sensíveis à importância de certos preceitos e insensíveis a outros. Isso se deve, muitas vezes, a costumes e pressões sociais. Há preceitos que as pessoas não consideram tão importantes porque a sua transgressão é reversível. Por exemplo: Quando alguém viaja no shabat, não está abrindo mão da opção de não viajar no próximo shabat. A “ruptura” não parece tão severa. Ademais, a mudança de atitude e de comportamento depende totalmente de cada pessoa. No caso de casamentos mistos, porém, trata-se de uma transgressão que não é facilmente reversível, e não depende exclusivamente dos pais. No momento em que a filha se casa com um não-judeu, mesmo que depois se arrependa dessa transgressão, há outro ser humano — às vezes mais do que um (filhos) — envolvido, com sentimentos, opiniões e certamente laços afetivos... O caminho “de volta para casa” torna-se, de fato, muito difícil...

        Um abraço,

        Eliezer

 

O DIÁLOGO COM JUAN

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 14 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        Acabei de voltar de viagem e não encontrei mensagens suas. Algum motivo para isso?

        Um abraço,

        Eliezer

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 14 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

 

Eliezer:

        Como vai?

        Para onde você viajou?

        Não escrevi ultimamente porque estive muito ocupado no trabalho.

        Quero lhe contar algo engraçado...

        No outro dia, minha namorada leu uma parte da nossa correspondência, e sorriu ao ler aquele trecho em que você diz que não conhece a família dela. A fim de esclarecer o mistério, quero lhe contar (com o consentimento dela) quem ela é e quem é a sua família. Eles são os..........., que você conheceu este verão em Punta del Este. Paulina é o meu (virtualmente impossível) amor.

        Suponho que tudo isso seja uma surpresa, certo? Você, por acaso, sabia que Paulina tem um namorado goy? Pergunto apenas por curiosidade. Talvez Mariana tenha comentado isso com você.

        Caramba, que problemas eu tenho com ela! Nunca houve nenhum confronto direto, nem nada parecido. Nunca fui convidado a ir à sua casa e raramente telefono, mas mudei a minha atitude com relação à Mariana (para pior, lamentavelmente). No começo, sempre que ela atendia ao telefone e falava rispidamente comigo, eu era super simpático e lhe dizia: “Oi, Mariana. Aqui é Juan. Como vai? Tudo bem? Fico feliz em ouvir isso. Paulina está?” E ela respondia friamente: “Sim, não, sim, não, espere...”

        O que é mais difícil para mim é o fato de sempre ter sido uma pessoa muito sociável... Jamais tive problemas com alguém. Em geral, desenvolvo relações intensas com as pessoas e ganho a sua amizade, especialmente em nível familiar. Passar disso para uma situação em que a família nem quer ver a minha cara em figurinhas é muito doloroso.

        Você pode imaginar o que é levá-la para casa à noite, para pegar um casaco ou trocar de roupa, e ter que esperar do lado de fora, no carro, sem poder entrar?  Durante esses momentos penso: “Tudo porque não sou judeu”... Sinto-me como a pior escória sobre a face da terra. Se eles sorrissem para mim e me explicassem o motivo de sua oposição ao nosso relacionamento com a mesma sabedoria que você o faz, as coisas seriam diferentes. Quando estou sozinho com meus pensamentos, olho para a janela da casa dela, vejo o movimento, e imagino que a última pessoa que eles querem ver pisando seu carpete sou eu. Só quero o melhor para Paulina, tanto quanto eles. Mas, assim como eles fazem o melhor possível, sei que também eu faço o melhor possível.

        Há poucas semanas, em conseqüência do diálogo fascinante entre nós, refleti sobre muitas coisas e acabei propondo a Paulina que terminássemos o nosso relacionamento. Vou lhe contar como ela reagiu. Ela me ama muito mais do que você pode imaginar, e suas palavras refletiam os sentimentos de uma moça que ama a sua religião, mas não quer ceder às suas ordens. Não sei... D’us sabe que tentei, dei-lhe mil e uma razões coerentes para terminar o namoro, mas ela não concordou com nenhuma delas. Se ela tivesse aceitado, seria o fim da minha vida, mas, acredite, significaria ao mesmo tempo o início da vida dela. Tenho certeza de que ela não tem nenhum futuro comigo. Tal futuro não existe. A família dela nunca me aceitará, por mais que eu seja uma boa pessoa, pois sei que o problema nada tem a ver com isso. Tanto faz se for eu ou qualquer outro rapaz que não seja judeu, eles não aceitarão.

        Concluindo, a história é a seguinte: Daqui a um mês fará um ano que estamos juntos. Os pais dela ainda não me conhecem pessoalmente (exceto por uma vez, quando encontramos Jaime por acaso), e não expressaram nenhum interesse em que eu ponha os pés em sua casa. Sabem que fico esperando do lado de fora, e não pretendem mudar isso (é lógico que prefeririam que eu nem estivesse do lado de fora). Tentei romper o nosso namoro, convencido de que isso seria a melhor solução para nós, mas ela morrerá se eu o fizer e ainda não tenho força suficiente para dar esse passo. Será que a solução seria simplesmente deixá-la sem ouvir a sua opinião? Acho que sim.

        Não tenho dúvidas de que o sofrimento pelo qual passaremos se dissipará pouco tempo depois e, dessa forma, darei a ela a oportunidade de criar uma nova vida com alguém que seja aceito pela sua família, o que a deixará incrivelmente feliz.

        Mas isso é muito difícil. Especialmente porque ela diz que não se importa pelo fato de eu não ser judeu (“Tudo bem... seria melhor... mas sei que não há outro homem melhor do que você...”, etc.). Creio que a única pessoa capaz de persuadi-la é seu primo Gustavo, com o qual mantenho excelentes relações.

        É incrível. A “única coisa” que faz com que eu não seja bom para ela é a minha religião. Ela sempre brinca: “Para minha mãe, amante da cultura, o que poderia ser melhor do que um estudante de literatura?” Paulina certa vez perguntou a Mariana se ela teria preferido que a filha namorasse um judeu que fosse um desastre como pessoa, e Mariana retrucou: “Por que tenho que escolher entre um cego e um surdo-mudo?” Muito esperto.

        Bem, termino hoje por aqui. Espero que, considerando o que acabei de escrever, você algum dia se coloque no meu lugar e veja como é difícil colocar na balança as leis de D’us em contraposição à natureza humana.

        Um abraço,

        Juan

 

 

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 15 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        Li seu e-mail, e tudo o que posso dizer é: Quão afortunado é aquele que caminha com a verdade e a transparência! Refiro-me tanto a mim mesmo como a você.

        Posso imaginar como tudo isso deve ser difícil para Paulina. Ela, sem dúvida, ama você muito e imagino o quanto lhe custa “rejeitá-lo” por não ser judeu. Acredite-me, eu a compreendo.

        No entanto, eu lhe disse isso desde o início. Não é fácil. Não é fácil superar sentimentos somente porque D’us assim o deseja.

        Posso dizer a vocês dois uma coisa: Vale a pena. Vale a pena fazer esse sacrifício, e tenho certeza de que D’us não permanecerá por muito tempo com dívidas não quitadas. Cada um de vocês encontrará sua verdadeira alma gêmea e constituirá uma família feliz, com saúde, alegria e bênçãos. É difícil, talvez impossível, visualizar as coisas agora. O amor cega. Mas vale a pena. Posso lhes dizer isso com base numa grande experiência com outros jovens que passaram por essa mesma situação.

        Não façam isso em consideração à família dela. Façam isso por vocês.

        Um forte abraço,

        Eliezer

        P.S.   Creio que deve ser impossível me colocar realmente no seu lugar... Imagino que não é nada fácil para vocês. Mas se D’us pôs vocês à prova, é certo que podem superá-la.

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 22 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

 

Caríssimo Eliezer:

        Como vai? Tudo bem?

        Acabei de ler o artigo que você me enviou (sobre casamentos mistos) e, com a maior humildade, acho que está faltando um ponto importante. Falta o elemento social. Creio que pouquíssimos dos argumentos que você apresenta possam ser considerados argumentos verdadeiros para uma família judaica rio-platense dos dias de hoje. Seus argumentos (perfeitos e convincentes do ponto de vista religioso) seriam a salvação para muitos pais judeus. Serviriam como uma justificativa perfeita para não permitir que seus filhos ou filhas se casem com não-judeus, porém não refletiriam os seus verdadeiros sentimentos.

        Eliezer, compreendo as suas crenças e respeito, do fundo do coração, a sua fé, profundamente enraizada, mas você sabe muito bem que nem mesmo um décimo dos judeus de Montevidéu pensa dessa forma. Sem falar diretamente da violação da maioria dos preceitos judaicos, sabemos que a geração atual dos pais judeus (em contraposição aos avós) nem sequer teve a oportunidade de freqüentar escolas judaicas, e carece de uma formação judaica. Na melhor das hipóteses, sabe o que lhe foi transmitido pela tradição, de pai para filho. Para lhe dar um exemplo concreto, na casa dos..., os filhos sabem muito mais a respeito da religião que seus pais, pela simples razão de terem recebido uma educação judaica (retomarei esse ponto mais tarde). Enfim, é fato que os verdadeiros motivos nem sempre têm a ver com a questão religiosa, mas geralmente com considerações sociais.

        Ninguém pode fazer um estudo aprofundado sobre as relações entre judeus e não-judeus na sociedade atual. No entanto, acredite-me, há elementos bastante desagradáveis nessa relação. Do mesmo modo em que há muitos não-judeus que têm atitudes negativas com relação a judeus, eu me atreveria a afirmar que a mesma porcentagem de judeus tem essa mesma atitude com relação aos gentios. Não é minha intenção especular aqui sobre questões de racismo e intolerância, mas estou interessado em enfatizar o aspecto social. As diferenças entre judeus e gentios estão longe de estarem resolvidas. E isso tem grande peso.

        Seria ousado dizer que na resistência a casamentos mistos dentro da comunidade judaica rio-platense não exista uma forte dose de discriminação, assim como seria ousado dizer que não há discriminação contra os judeus. Esse é um problema de grande peso. Penso que o judeu tem razões de sobra para não se mostrar mais aberto à sociedade que o perseguiu tantas vezes.

        Esses são alguns dos fatores sociais que podem influir. Acho que, similarmente, há muitas razões adicionais que nada têm a ver com a religião. De todo modo, os argumentos que você apresenta no seu artigo são os mais nobres.

        Retomando o assunto da educação, vejo que você não está contente com a educação judaica no Uruguai. Em minha opinião, é outro exemplo de que o Judaísmo atual na América do Sul se limita, cada vez mais, ao fator social do que ao religioso (observe que eu sempre me limito ao marco regional, porque não posso falar de outro que eu não conheça).

        Comecei a me relacionar com um forte ambiente judaico há pouco mais de um ano. Por um lado, tenho ótimos amigos judeus que conheci na universidade. Isso me deu a possibilidade de conhecer muitas famílias com diferentes níveis de prática religiosa. Todos, naturalmente, celebram as festas judaicas e alguns freqüentam a sinagoga, mas poucos são judeus de acordo com os requisitos  que você menciona no seu artigo. A maioria dessas famílias, com tendências sionistas, nem sequer tem idéia do que significa ser judeu.

        Sei que existe um programa chamado..., que supostamente serve para promover o espírito sionista nos jovens, levando-os para Israel, onde permanecem por um ano. Você quer saber o que esses jovens fazem nesse período? Bem, os rapazes dedicam-se a ficar bêbados e a fumar maconha. As moças, além disso, se envolvem em relações desinibidas com jovens israelenses. Não estou especulando. Esse é o caso da maioria dos rapazes e moças judeus que eu conheço. Mas o programa... é perfeito. Considere-o dessa forma: Eles voltam fascinados por Israel. Diga-me, porém, algo: Se você é um jovem que foi reprimido durante a adolescência; que sempre “tropeçou” nas mesmas pessoas desde a pré-escola; que nunca teve nenhum relacionamento com não-judeus (como é o caso dos meus colegas de classe judeus... o ano em que ingressaram na universidade significou a descoberta de não-judeus); você é jovem e tem a oportunidade de viajar para um país distante onde ninguém o controla ou lhe diz o que deve fazer; você vive gratuitamente; seus pais lhe enviam grandes quantias de dinheiro para que você possa fazer um pequeno passeio pela Europa sempre que desejar; e não só isso, mas você também descobre as drogas, o álcool e as festas. Ao voltar, por que não acharia que Israel é o melhor país do mundo? Você então decide retornar eventualmente a Israel, e o sionismo atinge o seu objetivo. Se essa experiência de vida tão profunda tivesse ocorrido no Congo, muitos teriam ficado fascinados pelo Congo.

        Insisto em dizer que a religião está deixando de ser o motivo principal das ações. É a sociedade que agora as regula.

        Saudações.

        Juan

       
P.S. Receio que a minha análise se limite à sociedade judaica da classe média - alta.
 

 

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 24 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia

 

Caro Juan:

        Uma vez mais, obrigado por sua última mensagem. Você me impressionou muito com sua capacidade de percepção e de análise.

        Se você se lembra, eu lhe disse desde o início que não responderia como porta-voz da família da Paulina, mas compartilharia com você meus pensamentos pessoais sobre o tema.

        No que se refere aos argumentos apresentados no artigo sobre casamentos mistos, é verdade que ele não reflete a opinião da maioria. Mas foi exatamente esse o objetivo — educar as pessoas (tanto os pais como os filhos) no que diz respeito aos verdadeiros motivos por que o Judaísmo se opõe aos casamentos mistos.

        O ponto central não é tanto por que não devem se casar com alguém que não seja judeu, mas que na realidade não existe casamento entre um judeu e um não-judeu, assim como não existe casamento entre irmãos biológicos.

        Ademais, acredito firmemente que embora a maioria dos judeus de Montevidéu se oponha conscientemente ao casamento misto por motivos equivocados, isso nada mais é do que uma manifestação de sentimentos e convicções inconscientes.

        A psicologia freudiana fala muito sobre o tema do inconsciente. O Talmud já o fez há milhares de anos! Nossos sábios nos ensinam que a ligação do judeu com D’us é indestrutível. Tudo o que um judeu fizer contra essa ligação se deve à ignorância, à falta de consciência e/ou a um momento de fraqueza. Em outras palavras, se o judeu estivesse plenamente consciente das verdadeiras conseqüências negativas de seus atos e tivesse controle de si mesmo, jamais os praticaria.

        O mesmo é verdade no que se refere à nossa relação com a Terra de Israel. Talvez os jovens pensem que estão encantados por Israel por que ali se divertiram... Acho que as coisas são muito mais profundas, se bem que possam não ter consciência disso... Eles possuem um vínculo de alma com Israel.

        O motivo da minha preocupação com o nível da educação judaica no Uruguai hoje em dia é precisamente o fato de os jovens não receberem as ferramentas com as quais saberiam ser judeus conscientes. O produto final da educação existente é uma pessoa cheia de conflitos, que não sabe como conciliar seus valores conscientes com suas convicções e intuições inconscientes. 

        O judeu é crente por natureza. A educação judaica formal e não-formal que os jovens recebem tende a negar essa condição de fé inata. A educação que eles recebem se alimenta de fontes e de critérios alheios ao Judaísmo, que negam a condição especial do judeu. Ela tem por objetivo normalizá-lo e redefini-lo como um cidadão do mundo. “Somos iguais a todos os demais, embora tenhamos certos costumes diferentes, um idioma e uma terra próprios”. Isso não funciona.

        Não funciona porque não somos iguais aos demais. Somos essencialmente diferentes. Temos uma missão de vida que é totalmente diferente. Possuímos uma alma que é totalmente diferente. Temos necessidades espirituais totalmente diferentes. Temos conflitos espirituais totalmente diferentes.

        Acontece que muitos judeus negam abertamente a sua condição de “diferentes”, porque não sabem como defendê-la ou porque não estão dispostos a assumir as responsabilidades que isso implica. No entanto, isso não muda o fato de que “são” diferentes.

        Muitos vivem suas vidas tentando se convencer de que são iguais aos seus vizinhos não-judeus. Lutam contra a sua condição especial de judeus... Até ver que seus filhos os levaram a sério e adotaram essa filosofia até suas conseqüências máximas... Querem se casar com não-judeus... E de repente, os pais se dão conta de seu próprio engano. Opa! Não somos iguais! Não estávamos falando a sério!

        Muitas vezes já é tarde demais...

        Por isso, acho que nossas diferentes opiniões sobre esse assunto se devam ao fato de você julgando as aparências e os sintomas. Eu vejo as coisas pelo que de fato são e não pelo que parecem ser... O judeu não quer (realmente), nem pode romper sua ligação com D’us, ainda que não esteja consciente disso.

        Um abraço,

        Eliezer

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 02 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        Há muito tempo que você não dá sinal de vida...

        Algum motivo especial?

        Um abraço,

        Eliezer

 

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 03 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Como vai, Eliezer?

        Lamento não ter escrito antes, mas realmente quase não tenho tempo para nada, pois estamos em época de exames na faculdade e isso toma o pouco tempo que tenho.

        As coisas logo voltarão ao normal e eu lhe escreverei sobre algumas inquietações, fruto de acontecimentos recentes.

        Um abraço,

        Juan

 

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 15 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Como vai, Juan?

        Queria lhe fazer uma pergunta:

        Tenho alguns conhecidos que se beneficiariam em ler o nosso diálogo. Eu naturalmente omitiria qualquer informação identificadora, a fim de proteger o anonimato das partes. Você se importaria?

        Um abraço,

        Eliezer

 

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Como vai, Eliezer?

        Tudo bem?

        Acabei de sair de uma época bastante complicada de exames. Só queria responder rapidamente o seu e-mail, e dentro de alguns dias escreverei um pouco mais.

        Não, não tenho problema nenhum em você compartilhar os nossos e-mails com outras pessoas. Pessoalmente, não acho que contribuí para o tema com algo que possa interessar a alguém. É mais do que óbvio que você jamais revelaria o nome da família da Paulina. Nessa condição, certamente, vá em frente e compartilhe o nosso diálogo com quem quiser.

        Eu me encontro agora numa fase decisiva no meu relacionamento com Paulina. Os próximos dias determinarão o destino do mesmo.

        Um abraço,

        Juan

 

 

De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 14 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Como vai você, caro Eliezer?

        Você certamente se perguntará por que precisei me desconectar um pouco do nosso diálogo...

        Você deve entender que depois da fluente troca de idéias entre nós, aconteceu um caos enorme em minha cabeça. Minhas dúvidas sobre por que Paulina e eu não deveríamos ficar juntos encontraram, de certa forma, sua resposta religiosa e também lógica. Meu questionamento com relação aos pais dela chegou ao fim, graças às suas palavras. No entanto, concordo com você: Eles não sabem como defender sua posição. A maneira correta de lidar com isso não é ignorar a minha existência. É justamente o oposto.

        Entenda isso: Estamos juntos há mais de um ano. Amo Paulina (mais do que possamos imaginar) e ela me ama (mais ainda do que conseguimos imaginar). Você deve se dar conta de que, numa sociedade como essa em que vivemos atualmente, ficar junto nos leva a crer que estamos lutando pelo verdadeiro amor, etc., etc. Dar-se por vencidos seria uma derrota inaceitável.

        Em resumo: Estou muito apaixonado por ela, tanto quanto ela está apaixonada por mim, e nenhum de nós duvida disso. Eu já estive envolvido em relacionamentos anteriores — Paulina também — e nunca nos sentimos tão felizes com outra pessoa. Os ingredientes que contribuem para o sucesso do relacionamento são: Limites claramente estabelecidos entre a vida cotidiana dela e a minha. O fato de ela ter um círculo de amizades totalmente diferente do meu contribui para evitar que um invada o espaço do outro. Jamais encontrei em minha vida uma mulher tão maravilhosa e inteligente. É o melhor “partido” da minha vida.

        Pois bem, qual foi então o motivo do meu silêncio? Eu me convenci a tal ponto de que nós não deveríamos ficar juntos que a deixei, sem me preocupar com o que ela pensava.

        Resultado: Muito sofrimento constante e ininterrupto para nós dois. Totalmente confuso, decidi voltar atrás. Pouco tempo depois, estávamos juntos novamente.

        Foi então (um pouco por causa das exigências dela) que interrompi o meu diálogo com você, que enchia a minha cabeça com idéias que conduziam ao caminho correto, mas que ela não está disposta a tolerar por enquanto.

        Entenda, pois, que por enquanto continuamos juntos e, se dependesse de mim, gostaria que isso fosse para sempre. Se eu tivesse que assinar algo que me comprometesse nesse exato momento, eu o faria imediatamente.

        Meus amigos dizem: “Você pode deixá-la, mas não chore amanhã quando a vir com outro namorado goy...” E se isso acontecesse? Se eu estiver convencido de que judeus e cristãos não devem ficar juntos, mas ela não? De que me serviu tanta clareza?

        Outra coisa que me deixa muito magoado (um assunto que você, de algum modo, sempre evita...) é a atitude dos pais dela com relação a mim. Sei que você sempre diz que não pode falar por eles. A única coisa que eu gostaria de saber é o que você pensa sobre a atitude deles. A qual atitude me refiro? Bem, há mais de um ano que a filha deles ama uma pessoa com a qual convive diariamente, que compartilha com ela infinitas horas, e mais... Entretanto, eles não demonstram nenhum interesse em me conhecer. Durante todo esse tempo em que estamos juntos, estive na casa dela uma única vez. Entrei na sala e sabia que a mãe dela estava em casa, mas ela nem veio me cumprimentar. Enquanto Paulina se trocava no quarto, fiquei na sala, derramando lágrimas pelo sofrimento provocado pela indiferença da mãe, que sabia que o namorado da filha estava na sala, mas não era digno do seu cumprimento.

        Depois de um tempo, como não havia alternativa, já que ela ia sair, a mãe da Paulina passou por mim, e disse: “Oi, Juan”, deu-me um beijo, me deu as costas e saiu.

        Quando alguém lhe pergunta se a filha tem namorado, o que ela responde? “Sim, mas eu não o conheço, pois me incomodaria que ele freqüentasse a nossa casa, porque é goy”.

        Gostaria que você me dissesse qual seria a atitude correta que eu poderia exigir dos pais da Paulina.

        Na semana passada, Paulina veio à minha casa e, como sempre, começou a chorar. Ela disse que não podia mais suportar as reclamações da mãe. Ela é uma excelente aluna. Acabou de se formar como contadora, e já está estudando para outra carreira. É responsável, superinteligente, e uma ótima pessoa. Mas acorda de manhã e vai dormir à noite ouvindo a mãe dizer que ela está destruindo a família, que é a causa do sofrimento dos pais, e que os avós irão morrer por causa dela e do seu namorado goy. Será que isso é justo?

        Será que eu mereço que me deixem à porta e que a mãe me atenda ao telefone como seu fosse um ninguém? Será que o fim justifica os meios? Ensinaram-me que isso está errado.

        Um abraço,

        Juan

        P.S. Por favor, tente não me responder com perguntas...

        P.P.S. Você compartilhou nossos e-mails com alguém? Recebeu algum comentário interessante?

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 14 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        Muito obrigado por seu e-mail.

        No que diz respeito à sua atitude por todo o tempo em que nos “conhecemos”, não tenho senão admiração por sua inteligência, sinceridade e força de caráter. É óbvio por que Paulina gosta tanto de você.

        Penso que há duas coisas que foram negligenciadas:

  1. O fato de eu não dialogar com ela, para lhe dar os elementos necessários para chegar às mesmas conclusões que você.
  2. Não conversar pessoalmente com vocês dois, em conjunto e/ou separadamente.

        Embora esse meio de comunicação que usamos tenha as suas vantagens, tem igualmente as suas limitações: Impede uma comunicação fluente e pessoal. Não insisti em encontrar você pessoalmente, porque já havia feito o convite e achei que você o aceitaria se e quando tivesse vontade. Ainda podemos corrigir esses dois erros.

        Voltando ao nosso diálogo eletrônico, creio que há algo muito importante que deva ser considerado. Não seria uma má idéia se vocês se casassem. Se isso apenas fosse possível. Mas o fato é que é impossível. Por mais formalidades que vocês cumpram e por mais documentos que assinem, o fato não muda. Um judeu não pode se casar com um gentio. Penso que tão logo vocês assumam isso como uma realidade inalterável, a tentação de fazê-lo desaparecerá. Repito o exemplo que lhe dei em outra ocasião. Imagine se vocês descobrissem que são irmãos biológicos. Apesar de estarem profundamente apaixonados um pelo outro, vocês se casariam? Pense um pouco sobre isso...

        Você tocou num ponto muito importante. Disse que se rompessem o relacionamento, isso seria uma espécie de derrota. Será que pensariam da mesma forma se descobrissem que são irmãos biológicos? Creio que não. Achariam que tiveram muita sorte em descobrir quem são realmente. Romper esse relacionamento não implica uma derrota, muito ao contrário. É a maior de todas as vitórias. Deixe-me explicar por quê.

        Nossos sábios definem como “forte” aquele que domina os seus instintos (Ética dos Pais, 4:1). Consideram-no mais forte do que um conquistador de cidades. Por quê?         Aquele que governa milhares ou milhões de pessoas possui apenas um poder relativo: Ele é mais forte do que milhões de pessoas mais fracas do que ele. Por outro lado, aquele que controla os seus instintos possui uma força verdadeira e, portanto, é mais forte do que o conquistador de cidades, já que possui outro tipo de força. Por quê?

        Quem é tão forte quanto esse conquistador de cidades? Ele próprio. Se pode apenas dominar aqueles que são mais fracos, mas não pode controlar a si mesmo, será ele verdadeiramente forte? Ele é fraco, simplesmente não tão fraco como os outros.

        Aposto que durante o tempo em que a deixou você teve  —dentro da dor — uma sensação de paz interior e enaltecimento pessoal por ter tomado a decisão certa. Como Paulina não compartilhou tal decisão com você, é claro que foi difícil resistir à tristeza e às lágrimas da pessoa que, neste momento, você tanto ama. Se ela tivesse compartilhado a decisão e essa sensação de alegria por ter conseguido superar a si mesma e fazer o que é correto, as coisas teriam sido diferentes. Ambos se sentiriam acompanhados e apoiados pela separação.

        Uma pergunta hipotética: Se ela viesse e dissesse: “Juan, percebi que você tem razão. Estou disposta a acompanhá-lo nessa difícil decisão. Cheguei à mesma conclusão que você”, você não se sentiria aliviado?

        De certa forma, para ela é muito mais difícil romper esse relacionamento do que para você, já que a sua decisão se basearia em considerações pessoais, ao passo que se a opção fosse dela, poderia ser atribuída à pressão dos pais. Se você decidir terminar a relação, é uma demonstração de força. Ninguém o pressionou. Se a iniciativa for dela, ela pode se sentir derrotada pela pressão. Além disso, a sua decisão de terminar o namoro baseou-se na convicção de que estava fazendo a coisa certa. Ela, por outro lado, nunca se perdoaria por ter sacrificado você pelo desejo dos pais. “Que espécie de mulher e de ser humano eu sou, se abandono uma pessoa que me ama tanto e a quem eu amo tanto apenas porque meus pais não gostam dele...?” Penso que posso entendê-la.

        Creio que neste momento ajudaria se ela interviesse nesse diálogo.

        Acho que ela está fazendo exatamente o que não quer fazer. Ela não quis tomar a decisão de romper o relacionamento para não ceder à pressão dos pais, e acaba tomando a decisão de prosseguir como reação a essa pressão.

        Sei que Paulina é uma jovem muito inteligente. Acho que se ela pudesse se libertar das pressões externas e tomar uma decisão baseada nas suas próprias descobertas a respeito dos assuntos em questão, e não como reação a tais pressões, vocês alcançariam os resultados que verdadeiramente estão procurando...

        No que se refere à minha opinião sobre os pais dela, penso que se comportam dessa maneira por causa de dor, receio e frustração, e não por raiva ou desprezo. Dor porque a filha rejeita a sua tradição, receio pelo futuro dela, e frustração por não terem conseguido lhe dar os elementos necessários para ajudá-la a compreendê-los e ser capaz de percorrer o labirinto da vida com sucesso. Parece-me que você é capaz de entendê-los. Eles não nutrem sentimentos negativos para com não-judeus. Mas isso não significa que devam, portanto, aceitar que sua filha se case com alguém que não seja judeu, abandonando a sua identidade, o seu povo, e o seu D’us. Ainda que eles sejam incapazes de articulá-lo, sentem-no em suas entranhas. Não é nada pessoal contra você. Diz respeito a ela e a eles.

        Até mesmo no reino animal é instintivo deixar descendentes. É natural resistir à perda de um filho... Não quero ser repetitivo, porém, para os pais da Paulina, como os filhos da sua filha se definirão? Com qual povo se identificarão, com o do pai ou com o da mãe?

        Minha resposta acabou sendo mais longa do que eu pretendia no início, mas quis atender o seu pedido, de dar uma resposta sem perguntas. Tudo bem?

        Sim, eu mostrei os e-mails para outras pessoas (mudando, naturalmente, os nomes e os detalhes identificadores). Todas elas concordam com você em muitas coisas. Concordam que muitos dos seus amigos, que passam por situações semelhantes, não possuem os elementos mais básicos para tomar decisões com conhecimento de causa. Os seus argumentos e comentários são muito precisos e realçam a situação real.

        Aguardo a sua resposta.

        Um abraço,

        Eliezer

 

De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 29 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

 

SHANÁ TOBÁ! Para você e sua família (é assim que se escreve?).

Meus melhores votos para você e os seus!

Juan

 

 

De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 05 de outubro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        SHANÁ TOBÁ! Para você e sua família (é assim que se escreve?).

        Vivemos numa democracia... Cada um escreve o que quiser, como quiser... Eu escreveria “Shaná Tová”.

         Meus melhores votos para você e os seus!

        Muito obrigado. Igualmente.

        Alguma novidade na “montanha russa”?

        Um abraço,

        Eliezer

 

De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

 

Caríssimo amigo Eliezer:

        Retomo hoje meu agradável contato com você, depois de passar algumas semanais infernais de fim de semestre na faculdade. As aulas terminaram na sexta-feira passada e começamos o período de exames, que irá até o fim de dezembro.

            Devo confessar que agora estou um pouco constrangido. Por quê? Bem, porque depois de todo o diálogo que mantive com você, com Paulina e comigo mesmo, cheguei à conclusão de que pretendo continuar o meu relacionamento com ela. Os motivos?

            Cheguei à conclusão de que é ela, e não eu, quem deve se preocupar com os aspectos religiosos, quem deve optar pela religião ou pelo relacionamento. Eu a amo muito e não a deixarei por causa do meu frágil Cristianismo. É a vez de ela decidir, e ela já o fez há muito tempo: Quer ficar comigo. O que estou dizendo, em outras palavras, é o seguinte: Imagine se eu a deixasse hoje pelos motivos religiosos que ambos conhecemos. Ela não quer terminar o relacionamento e estaria disposta a se casar amanhã. Ela jamais suportaria separar-se de mim (palavras dela...).

        No artigo sobre casamentos mistos que você me enviou, você conta uma história sobre uma moça que estudava a fim de se converter, e no final dos seus estudos, disse ao noivo: “Você acha que eu me casaria com alguém que estava disposto a se casar com um não-judeu?...” Você se lembra? Pois bem, isso de certo modo se aplica ao meu caso. Depois de ler muito sobre o tema e entender parcialmente alguns assuntos que eu antes ignorava, ela sem dúvida é uma “daqueles” que pretende se casar com um não-judeu. O que isso significava na história? Alguém que não é digno de se casar com um judeu? Alguém que é judeu apenas de neshamá? Não sei. Enfim...

        O fato é que se eu a deixasse por minhas convicções, seria como prestar uma homenagem a alguém que adora a sua religião, seria uma espécie de presente, algo que eu sei que ela apreciaria mais tarde, e não creio que esse seja o caso da Paulina. Ela é bem madura, estudou muito sobre a sua religião, “esbarrou” em judeus durante toda a vida, conhece mais a respeito do tema do que a maioria dos jovens da sua idade, e mesmo assim está tomando essa decisão... Eu não estudei nem um décimo do que ela estudou, não conheço sequer a milésima parte dos judeus que ela conhece, nem mesmo sou judeu... Você acha que eu poderia saber o que é melhor para ela?

        Agora que tomei a decisão de seguir adiante no nosso relacionamento, receio que não mais encontrarei em você um aliado. Talvez você perca todo o interesse nas nossas conversas... Não sei. Mas imagino que você continuará tentando me convencer, certo?

        “Mudando” de assunto, a mãe da Paulina ganhou o meu ódio a tal ponto que, se eu deixasse Paulina, tornaria a mãe dela a pessoa mais feliz do mundo. Acredite-me, não é o que ela merece.

        O meu relacionamento com Paulina já tem mais de um ano, e vi seus pais poucas vezes. Na casa dela todos sabem que eu existo, sabem perfeitamente por que não vou lá e, apesar disso, sorriem diariamente como se nada tivesse acontecido. Talvez eu veja tudo de forma tão horrível porque na minha casa uma coisa dessas nunca aconteceria.

        A prova explícita de como a família da Paulina se comporta mal é a seguinte: Minha mãe, que é uma católica devota, vai à igreja todos os domingos, etc. — certamente não quer para seu filho uma moça judia. É óbvio que ela preferiria que eu me casasse com uma moça cristã, com as bênçãos da Igreja. Contudo, ela adora Paulina, a abraça sempre que vem à nossa casa, a convida para comer conosco, e a trata como todo ser humano merece ser tratado. Minha mãe não permite que seus desejos pessoais, para si mesma e para mim, interfiram no meu relacionamento com Paulina.

Por outro lado, temos a mãe da Paulina, que é judia pour la galerie, como se diz, para se exibir. Ela transforma a nossa relação num inferno... Creio que a questão ficou bem clara, não é?

        Em minha casa não é admitido nenhum tipo de discriminação. Meus amigos de infância, cujas casas eu freqüentava diariamente, eram de diversas origens étnicas e religiosas. Talvez por essa razão eu não possa conceber a discriminação explícita que ocorre na casa dos.... É uma atitude deplorável e condenável, que não tem nenhuma justificativa. Insisto nesse ponto, já que eu nunca soube qual a sua opinião a respeito, e gostaria de entendê-la.

Um abraço,

Juan

P.S. Se eu lhe pedisse para conversar com a mãe da Paulina, para fazê-la compreender que eu mereço no mínimo uma explicação, que ao fechar a porta na minha cara ela não vai conseguir nada, que eu não sou nenhum pária, que mereço um mínimo de respeito..., você o faria?

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Caro Juan:

Obrigado por seu e-mail. Você diz:

No artigo sobre casamentos mistos que você me enviou, você conta uma história sobre uma moça que estudava a fim de se converter, e no final dos seus estudos, disse ao noivo: “Você acha que eu me casaria com alguém que estava disposto a se casar com um não-judeu?...” Você se lembra? Pois bem, isso de certo modo se aplica ao meu caso. Depois de ler muito sobre o tema e entender parcialmente alguns assuntos que eu antes ignorava, ela sem dúvida é uma “daqueles” que pretende se casar com um não-judeu. O que isso significava na história? Alguém que não é digno de se casar com um judeu? Alguém que é judeu apenas de neshamá? Não sei. Enfim...

Significa simplesmente, que ao dar-se conta do que era realmente viver como um judeu, e tendo adotado essa vida para si, ela percebeu que seria incapaz de compartilhá-la ou de constituir uma família judaica com alguém que se preocupava tão pouco com a questão, que estivesse disposto a se casar com uma pessoa que nada tinha a ver com o Judaísmo. Por exemplo, se você estudasse o Judaísmo a ponto de estar convicto de sua legitimidade, e optasse por adotá-lo como sua própria identidade e modo de vida, você se sentiria compatível com uma moça que não se preocupa absolutamente com nada disso, e está disposta a sacrificar tudo pelo amor (próprio)?

O fato é que se eu a deixasse por minhas convicções, seria como prestar uma homenagem a alguém que adora a sua religião, seria uma espécie de presente, algo que eu sei que ela apreciaria mais tarde, e não creio que esse seja o caso da Paulina. Ela é bem madura, estudou muito sobre a sua religião, “esbarrou” em judeus durante toda a vida, conhece mais a respeito do tema do que a maioria dos jovens da sua idade, e mesmo assim está tomando essa decisão... Eu não estudei nem um décimo do que ela estudou, não conheço sequer a milésima parte dos judeus que ela conhece, nem mesmo sou judeu... Você acha que eu poderia saber o que é melhor para ela?

         Não vejo as coisas dessa forma. Não se trata de respeitar alguém, mas de fazer o que é correto. É óbvio que é difícil esperar que você se importe com isso mais do que ela, ou seja, se ela não se incomoda com a religião dela, por que você deveria se incomodar? Contudo, penso que a questão não termina aqui. Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?

Mais ainda, penso que a pergunta aqui é: Paulina está tomando sua decisão com base no que ela acredita ser correto, ou com base nos seus sentimentos, sem levar em consideração o que ela acredita ser correto? Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?

                Pense bem. Por que ela tem medo ou está constrangida em discutir esse assunto comigo? Por acaso você teve algum problema em conversar comigo sobre o tema? É claro que não. Você não tinha nada para esconder, nada do que fugir. A sua relação sempre foi e continua sendo uma relação de franqueza e transparência total... Você sabe se há qualquer outro tema sobre o qual Paulina se recusaria a conversar? A preocupação, portanto, não é a de protegê-la de você, mas de protegê-la (e a você) de si mesma e do seu processo de decisão... na luta constante que todos nós temos entre a mente e o coração.

         Agora que tomei a decisão de seguir adiante no nosso relacionamento, receio que não mais encontrarei em você um aliado. Talvez você perca todo o interesse nas nossas conversas... Não sei. Mas imagino que você continuará tentando me convencer, certo?

        Não sou um juiz, nem tampouco o policial de D’us. Tento compartilhar meus conhecimentos com aqueles que estejam interessados ou que deles possam tirar proveito. Estarei sempre ao seu dispor para continuar a esclarecer as coisas de acordo com as minhas possibilidades. Sou um aliado da busca sincera...

         “Mudando” de assunto, a mãe da Paulina ganhou o meu ódio a tal ponto que, se eu deixasse Paulina, tornaria a mãe dela a pessoa mais feliz do mundo. Acredite-me, não é o que ela merece.

        Isso tampouco deveria ser um motivo para deixá-la ou para continuar com ela...

         O meu relacionamento com Paulina já tem mais de um ano, e vi seus pais poucas vezes. Na casa dela todos sabem que eu existo, sabem perfeitamente por que não vou lá e, apesar disso, sorriem diariamente como se nada tivesse acontecido. Talvez eu veja tudo de forma tão horrível porque na minha casa uma coisa dessas nunca aconteceria.

         A prova explícita de como a família da Paulina se comporta mal é a seguinte: Minha mãe, que é uma católica devota, vai à igreja todos os domingos, etc. — certamente não quer para seu filho uma moça judia. É óbvio que ela preferiria que eu me casasse com uma moça cristã, com as bênçãos da Igreja. Contudo, ela adora Paulina, a abraça sempre que vem à nossa casa, a convida para comer conosco, e a trata como todo ser humano merece ser tratado. Minha mãe não permite que seus desejos pessoais, para si mesma e para mim, interfiram no meu relacionamento com Paulina.

Por outro lado, temos a mãe da Paulina, que é judia pour la galerie, como se diz, para se exibir. Ela transforma a nossa relação num inferno... Creio que a questão ficou bem clara, não é?

        Não creio que a intenção dela seja “complicar” o seu relacionamento com Paulina. Ela certamente o faz por outros motivos, como lhe explicarei adiante.

         Em minha casa não é admitido nenhum tipo de discriminação. Meus amigos de infância, cujas casas eu freqüentava diariamente, eram de diversas origens étnicas e religiosas. Talvez por essa razão eu não possa conceber a discriminação explícita que ocorre na casa dos.... É uma atitude deplorável e condenável, que não tem nenhuma justificativa. Insisto nesse ponto, já que eu nunca soube qual a sua opinião a respeito, e gostaria de entendê-la.

        Creio que já lhe dei a minha opinião a respeito disso. Não se trata de discriminação contra quem não é judeu, porém — mesmo no caso de uma família que não cumpra todos os preceitos do Judaísmo —, no caso de casamentos mistos estamos falando de uma ruptura clara e praticamente irreversível. Sua filha está prestes a romper uma cadeia que foi formada ao longo de milênios, com grande sacrifício. Ainda que você possa considerar a mãe da Paulina como judia pour la galerie, tenho certeza de que ela — como praticamente todo judeu da sua geração — fez grandes esforços e sacrifícios pessoais por ser judia. Embora ela talvez ainda não tenha conseguido superar todos os desafios com os quais se deparou isso não significa que não haja questões que a afetam clara e profundamente. Ser mais ou menos observante é uma questão de matizes. Ser ou não judeu, pertencer ou não pertencer ao mesmo povo e à mesma história e destino, é uma questão inequívoca, sem quaisquer matizes.

        Talvez seja muito difícil para você imaginar até que ponto esse tema é profundo. Creio que o exemplo que você traz sobre a sua família não se aplica. A fé da sua mãe é algo pessoal dela, pelo qual ela optou. Se você não compartilha a fé dela, por que ela deveria impô-la a você? Ela optou por aquilo em que acredita e, logicamente, deveria concordar que você escolhesse aquilo no qual acredita. Além disso, mesmo que quisesse, não poderia impor-lhe as suas crenças, porque a fé é uma questão pessoal de cada um. Você acredita ou não. Se você acredita, então pertence àquela religião, e se não acredita, não pertence. Não existe, por exemplo, cristãos ateus. Estes são dois termos mutuamente excludentes. Deixe-me, porém, perguntar-lhe algo. A sua mãe aceitaria, por exemplo, que você a substituísse por outra mãe? Você certamente deve estar pensando: “Que pergunta mais ridícula!” Certo? Mas pense bem... Se ela o ama tanto, e se é tão tolerante, por que se importaria se você decidisse trocá-la por outra? Por que ela deveria se impor? Ela pode ser acusada de intolerante e discriminatória? A resposta é óbvia: Você é parte dela. Para sempre. Sangue do seu sangue. “Desconectá-lo” de si seria como arrancar-lhe um braço (para dizer pouco).

O caso da Paulina e da mãe dela é semelhante a essa pergunta “ridícula” que formulei antes. Ser judeu — para quem nasceu judeu — é uma condição que independe de sua vontade, do mesmo modo que ser filho de determinados pais não depende de desejos ou preferências. Ser judeu implica uma pertinência tão ou mais forte que os laços entre pais e filhos. É mais do que uma questão afetiva. É uma questão de conexão essencial, não circunstancial. Não é racional. Renegar a própria condição de judeu é como optar por ter outra mãe. Não é como escolher uma carreira ou adotar um estilo de vida diferente. Você já viu alguém que, calmamente, permita que lhe arranquem um braço?

        Não sei se consegui expressar meu ponto de vista de forma inteligível – além do fato de você concordar com ele ou não. Se eu escrevi algo que não ficou claro, diga-me francamente.

P.S. Se eu lhe pedisse para conversar com a mãe da Paulina, para fazê-la compreender que eu mereço no mínimo uma explicação, que ao fechar a porta na minha cara ela não vai conseguir nada, que eu não sou nenhum pária, que mereço um mínimo de respeito..., você o faria?

        Não sei se me compete tomar a iniciativa de falar com ela sobre isso. Tento respeitar o espaço dos outros... Se alguma vez ela tocar no assunto, lhe direi o que penso. Repare que tampouco falei com Paulina, esperando que ela concorde em conversar comigo...

        Aguardo sua resposta.

        Um abraço,

        Eliezer

 

P.S. Uma pergunta: Paulina está ciente de tudo o que conversamos?

 

 

De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Eliezer:

        Como vai?

        Desculpe-me dizer isso, mas algumas das coisas que você escreveu no último e-mail me pareceram um tanto sinistras.

Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?

        Independentemente das dela? Você acha que eu deveria tomar decisões que dizem respeito ao casal, independentemente?

Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?

        Antes de tudo, eu gostaria de ouvir mais exemplos de situações em que é melhor escolher com a cabeça do que com o coração...

        Por outro lado, estou muito ofendido por você continuar a justificar as atitudes da mãe da Paulina. Entendo que você não é juiz, nem policial, mas o que a família dela está fazendo é injustificável. Não espero que abram a porta de sua casa e me convidem para comer, oferecendo-me sua filha numa bandeja de prata. Você acha que eu não mereço que me digam, pelo menos uma vez, “Entre, sente-se, deixe-nos explicar-lhe por que não podemos permitir que você freqüente a nossa casa”? Por acaso presumem que eu já sei o motivo e, portanto, não mereço nenhuma explicação de sua parte? O fato de ser um goy e namorado de sua filha não me transforma numa pessoa indigna. Este é o erro ad hominem que os pais da Paulina estão cometendo. 

        Um abraço, e aguardo as suas respostas.

P.S.   Afinal de contas, se você tanto insiste que é impossível deixar de ser judeu, qual o problema de ela se casar comigo? Os filhos dela serão, de todo modo, judeus. Por acaso se trata de uma questão social?

 

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia

Juan:

        Como vai? Obrigado por seu e-mail. Você escreve:

          Desculpe-me dizer isso, mas algumas das coisas que você escreveu no último e-mail me pareceram um tanto sinistras.

Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?

          Independentemente das dela? Você acha que eu deveria tomar decisões que dizem respeito ao casal, independentemente?

        Se você reler o que escrevi, verá que eu não me referia a tomar decisões de forma independente, porém a você chegar às suas próprias conclusões sobre o assunto e poder discuti-las com ela, se as suas conclusões não concordem com as dela.

Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?

          Antes de tudo, eu gostaria de ouvir mais exemplos de situações em que é melhor escolher com a cabeça do que com o coração...

        A vida está cheia de exemplos... Escolher entre estudar para um exame ou ir passear, por exemplo...

          Por outro lado, estou muito ofendido por você continuar a justificar as atitudes da mãe da Paulina. Entendo que você não é juiz, nem policial, mas o que a família dela está fazendo é injustificável. Não espero que abram a porta de sua casa e me convidem para comer, oferecendo-me sua filha numa bandeja de prata. Você acha que eu não mereço que me digam, pelo menos uma vez, “Entre, sente-se, deixe-nos explicar-lhe por que não podemos permitir que você freqüente a nossa casa”? Por acaso presumem que eu já sei o motivo e, portanto, não mereço nenhuma explicação de sua parte? O fato de ser um goy e namorado de sua filha não me transforma numa pessoa indigna. Este é o erro ad hominem que os pais da Paulina estão cometendo. 

         Juan, em nenhum momento eu justifiquei as atitudes dela. Eu estava simplesmente tentando explicar o que a motiva. É bem possível que eles não tenham a coragem de confrontá-lo pessoalmente, porque não sabem como explicar os motivos de sua oposição ao relacionamento de vocês. É possível que nem eles saibam defini-los muito bem. Veja, eu não tive nenhum problema em discutir esse assunto com você, sob todos os aspectos. Se eu apoiasse atitudes discriminatórias, você acha que eu me daria ao trabalho de lhe responder? Não justifiquei a mãe da Paulina, assim como também não julguei Paulina... Repito: Quem sou eu para julgar, condenar ou defender alguém, especialmente sem ter antes conversado com a pessoa?

          Um abraço, e aguardo as suas respostas.

P.S. Afinal de contas, se você tanto insiste que é impossível deixar de ser judeu, qual o problema de ela se casar comigo? Os filhos dela serão, de todo modo, judeus. Por acaso se trata de uma questão social?

        Os filhos dela serão educados como judeus? Eles não serão também seus filhos? Você não terá, portanto, o direito de educá-los a ser como você? Sua mãe não terá a vontade e o direito de educá-los de acordo com a religião dela? Nesse momento você está pensando em filhos “virtuais”. Na prática, porém, é uma história totalmente diferente... Falo de experiência, com base em muitos casais que conheço.

        Juan: Faltou seu abraço no fim deste e-mail. Espero que não tenha sido intencional. Quero repetir o quanto respeito e admiro a sua sinceridade e inteligência. Se em qualquer momento nesse diálogo algo que eu tenha dito ofendeu você, foi totalmente n&at