Estamos iniciando uma nova coluna, com a tradução do livro “Amores impossíveis”, do Rabino Eliezer Shemtov, do Uruguai, já publicado em inglês e espanhol. Publicaremos um parágrafo a cada semana, e no final, se D’us quiser, o livro inteiro.
O livro é um diálogo entre o rabino e um tal de Juan (não-judeu), e trata do problema do casamento misto. “Cada vez que isso ocorre provoca um enfraquecimento na cadeia milenar do povo judeu”, escreve o autor.
Por favor, sinta-se à vontade para nos enviar os seus comentários.
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Rabino Shemtov:
Meu nome é Juan García e, como o senhor pode perceber, infelizmente não tenho a honra de ser judeu. Gostaria de lhe perguntar algo com a maior sinceridade, e espero que o senhor me responda.
Tenho vinte e seis anos de idade, e há um ano tive a grande sorte de conhecer uma moça judia, cujo nome eu prefiro não revelar. Ela tem uma formação judaica forte, e hoje é a luz da minha vida.
O senhor certamente deve estar imaginando aonde tudo isso vai levar. Na casa dela há uma crescente crise familiar por causa do goy com o qual a filha está namorando. É óbvio que os pais dela nunca me conheceram e tampouco expressaram qualquer desejo de fazê-lo.
No início não entendi o motivo disso tudo, embora um dos meus melhores amigos, desde a minha infância e até hoje, seja judeu. Nunca percebi a existência de uma rejeição tão grande com relação aos gentios quando judeus namoram não-judeus. Estou bastante familiarizado com a teoria segundo a qual casamentos mistos devem ser evitados a fim de combater a assimilação. Parece-me, no entanto, que não se trata somente disso. Em famílias judaicas como a dela, em que a religião não é a maior das preocupações, é mais uma questão do constrangimento pelo qual a mãe passa no cabeleireiro do que a preocupação com os perigos da assimilação.
Recentemente, os avós dela tomaram conhecimento do nosso namoro e a mãe — ao ver o horror do avô — tentou convencê-lo de que o nosso relacionamento não era nada sério. Ele não conseguia aceitar o fato de que sua neta namorava um gentio. Uma das frases que o avô disse foi: “A goishe iz a goishe”. Perdoe o meu iídiche, mas o senhor sabe o que isso significa. O que eu pensava que fosse simplesmente uma propensão contra casamentos mistos revelou-se como um claro ato de intolerância.
O senhor percebe? A sua religião, que merece o maior respeito de minha parte, que sempre se conduziu com sabedoria, acaba se professando contra a tolerância que sempre foi uma insígnia em sua bandeira.
Depois de viver pessoalmente esse problema, descobri muitos outros casos semelhantes. Famílias que deserdaram seus filhos ou filhas ou, o que é ainda pior, colocaram-nos num avião para Israel, para que nunca mais vissem seus namorados ou namoradas gentios. Isso me demonstra que não se trata do problema de uma minoria, nem tampouco de um incidente isolado.
Espero que o senhor consiga compreender a minha aflição e não pense que sou um anti-semita, pois para mim está bastante claro: se D’us decidiu colocar a mais bela mulher do mundo no meu caminho, é óbvio que Ele a tomou do Seu povo eleito.
O senhor poderia esclarecer o meu ponto de vista, se é que ele realmente está confuso?
Talvez as suas palavras me ajudem a compreender.
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 25 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Obrigado por seu e-mail e pela sinceridade e transparência com que você o escreveu.Tentarei responder da mesma forma.
Compreendo muito bem a sua frustração. Você tem diante de si — ou ao seu lado — uma mulher a quem ama e com a qual gostaria de compartilhar o resto de sua vida.
Você percebe que querem tirá-la de você por motivos injustificados [“O que dirão no cabeleireiro...”].
Não parece correto de minha parte defender a posição e as atitudes de uma família que não conheço, e cujos argumentos não ouvi. Tudo o que posso fazer é falar com você sobre o tema a partir do meu ponto de vista, e não como porta-voz deles.
Concordo com você que o amor é um dos fatores mais importantes que determinam com quem você irá se casar. Porém, é óbvio que não é o único. Imagine se você descobrisse que a mulher dos seus sonhos é na verdade sua irmã biológica; você se casaria com ela?
A Torá define claramente com quem um judeu pode se casar e com quem não pode. Para que o casamento exista — não há casamento entre irmãos biológicos, embora fisicamente possam até procriar — devem existir as condições que D’us estipulou. É evidente que não pode haver um casamento entre duas pessoas cuja união não seja aceita pela Torá.
Em minha opinião, você deve distinguir entre critérios objetivos (o que diz a Torá) e subjetivos (o que diz a família dela). Posso entender que você se sinta desiludido e magoado pela aparente hipocrisia de pessoas que não praticam o Judaísmo em sua vida pessoal e, de repente, se opõem a que sua filha se case com alguém simplesmente pelo fato de ele não ser judeu. Seus futuros filhos, entretanto, não têm culpa disso. Você tampouco deveria tomar decisões com base em atitudes, aparentemente incoerentes, dos pais dela. Vou lhe dizer ainda mais: mesmo que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...
Acredite-me, entendo muito bem o inferno pelo qual você deve estar passando. Não é nada fácil. Mas gostaria de lhe dizer uma coisa: O caminho da Torá é o caminho da paz e da verdade. A violação das leis da Torá não traz, no final das contas, nenhuma bênção, se bem que isso seja muito difícil de aceitar no início. Por outro lado, fazer o que D’us quer, mesmo que exija muito sacrifício, lhe trará bênçãos verdadeiras, infinitas e eternas...
Se você quiser conversar comigo pessoalmente para discutir mais amplamente esse tema, terei muito prazer em encontrá-lo. Estou interessado em protegê-lo — a você e a ela — para que não dê um passo em falso por falta de conhecimento ou como reação a atitudes que parecem injustas...
Um abraço,
Eliezer
P.S. Publiquei um artigo sobre casamentos mistos. Se você estiver interessado, avise-me e eu lhe enviarei um exemplar com muito prazer

O DIÁLOGO COM JUAN
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Eliezer:
Muito obrigado por ter respondido o meu e-mail. Agradeço-lhe de todo o coração. Os pontos apresentados são de fato verdadeiros, porém se baseiam, obviamente, nos cânones de uma religião que não é a minha.
Seria realmente agradável que conversássemos pessoalmente em algum momento.
Muito obrigado. É claro que estou interessado em ler o material que você publicou sobre esse tema.
Um forte abraço,
Juan
P.S. O que você quis dizer ao afirmar que meus filhos não têm culpa? Entendo que você esteja se referindo ao futuro, mas não compreendo por que eles deveriam sofrer.
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 23 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Obrigado por sua resposta. Você escreve:
Os pontos apresentados são de fato verdadeiros, porém se baseiam, obviamente, nos cânones de uma religião que não é a minha.
Essa é uma observação válida. No entanto, você deve levar várias coisas em consideração:
- A moça pela qual você se apaixonou também pertence a uma religião que não é a sua... E mesmo que ela não a respeite, ao se casarem, você na verdade estaria fazendo com que ela violasse sua própria religião e as leis do seu povo. Você acha que alguém que realmente ame outra pessoa a levaria a trair o seu próprio povo e também D’us?
- Meu argumento inicial não tinha a intenção de convencê-lo do que você deve fazer, mas explicar por que não se trata aqui de uma questão de discriminação pessoal e sim uma regulamentação bíblica.
- No seu primeiro e-mail você escreveu sobre D’us e o povo eleito. Entendi a partir disso que você aceita a Bíblia como um ponto de referência válido. Se for válido o suficiente quando se trata de definir a moça como parte do “povo eleito”, por que deixaria de ser válido quando lhe diz que você não pode se casar com ela?
Um forte abraço.
Igualmente
P.S. O que você quis dizer ao afirmar que “meus filhos não têm culpa?” Entendo que você esteja se referindo ao futuro, mas não compreendo por que eles deveriam sofrer.
Você acha que é saudável para um filho crescer num ambiente em que os pais pertençam a religiões diferentes? Como você o educará? Como um judeu? Como um gentio? Como um “neutro”? Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu”? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?
Em resumo: Todos os argumentos lógicos que alguém possa apresentar contra casamentos mistos poderão ser refutados por outros argumentos a favor. O único argumento que, em minha opinião, é irrefutável é que D’us os proibiu expressamente. Tudo o mais é apenas comentário...
Eliezer
O DIÁLOGO COM JUAN
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 29 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Eliezer:
Muito obrigado pelo tempo que você está me dedicando. Tento extrair o máximo possível de suas palavras.
Gostaria muito que você me enviasse o seu artigo por e-mail.
Tenho algumas dúvidas a respeito do que você escreveu no primeiro e-mail. Você afirmou: “... Ainda que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...”
Mesmo não sendo um cristão praticante, recebi uma educação cristã num colégio católico, e conheço a minha Bíblia muito bem. Não me lembro de nenhum trecho que defina com quem posso me casar. É claro que nenhuma igreja reconheceria o meu casamento com uma moça que não tivesse sido batizada, mas isso pode ser solucionado. No caso do Judaísmo, entretanto, de acordo com o que você afirma, eu não resolveria a questão ao me converter, porque a sua frase seguinte (com relação aos meus futuros filhos) ainda seria válida: Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?...”
Creio que eu deveria ter feito uma pergunta antes: Você acredita em conversão? Você acha que se deve esperar que eu mude todas as minhas crenças de uma hora para outra?
Bom, não quero tomar mais seu tempo. Novamente, muito obrigado pela grande quantidade dele que você dedica às minhas dúvidas e inquietações.
Um forte abraço,
Juan
P.S. Que sobrenome importante você tem! Por acaso você tem a honra de ser descendente direto do “Dono do Bom Nome” — Baal Shem Tov (Israel Ben Eliezer)?
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 29 de junho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Gostaria muito que você me enviasse o seu artigo por e-mail.
Eu o enviarei mais tarde, se D’us quiser... Tenho que encontrar o arquivo... Talvez seja melhor que eu lhe envie uma cópia impressa...
Tenho algumas dúvidas a respeito do que você escreveu no primeiro e-mail. Você afirmou: “... Ainda que os pais dela concordassem que ela se casasse com você, você estaria em falta com o seu próprio Criador...”
Mesmo não sendo um cristão praticante, recebi uma educação cristã num colégio católico, e conheço a minha Bíblia muito bem. Não me lembro de nenhum trecho que defina com quem posso me casar.
Leia Deuteronômio 7:3-4: “E não te aparentarás com elas; tua filha não darás a seu filho e sua filha não tomarás para teu filho”.
É claro que nenhuma igreja reconheceria o meu casamento com uma moça que não tivesse sido batizada, mas isso pode ser solucionado. No caso do Judaísmo, entretanto, de acordo com o que você afirma, eu não resolveria a questão ao me converter, porque a sua frase seguinte (com relação aos meus futuros filhos) ainda seria válida: Você lhe dirá: “Você é judeu e pertence a um povo que não é o meu? Você lhe dirá que ele pode escolher o que quer ser? É justo forçá-lo a escolher entre o pai e a mãe? Será que essa escolha depende realmente dele? E o que acontece com a relação dele com os avós, primos e outros familiares?...”
Creio que eu deveria ter feito uma pergunta antes: Você acredita em conversão? Você acha que se deve esperar que eu mude todas as minhas crenças de uma hora para outra?
O Judaísmo aceita como judeu qualquer homem ou mulher nascido de mãe não-judia se passar por um processo de guiyur, ou seja, conversão. A conversão ao Judaísmo consiste em fazer exatamente o mesmo que fez o Povo Judeu a fim de tornar-se judeu: 1) Brit Milá (circuncisão); 2) Imersão em um micvê (piscina de imersão ritual); 3) Aceitação do cumprimento das 613 mitsvót (preceitos) da Torá em sua totalidade. Tudo isso deve ser feito na presença de um Tribunal Rabínico válido.
No que diz respeito a você, ninguém lhe pede para mudar suas crenças. O que motiva uma pessoa a se converter ao Judaísmo é justamente o seu desejo de dar plena expressão às suas crenças, e não de mudá-las.
Bom, não quero tomar mais seu tempo. Novamente, muito obrigado pela grande quantidade dele que você dedica às minhas dúvidas e inquietações.
De nada.
Um forte abraço.
Para você também.
P.S. Que sobrenome importante você tem! Por acaso você tem a honra de ser descendente direto do “Dono do Bom Nome” — Baal Shem Tov (Israel Ben Eliezer)?
Não, pelo que sei...
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 02 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Eliezer:
Retomando esse contato interessante:
Como vai? Espero que tudo esteja bem. Alguns trechos no seu último e-mail me parecem muito interessantes.
Você tem razão no que se refere ao trecho bíblico que proíbe um judeu de se casar com um não-judeu. Isso está bem claro. Há, porém, algo que não entendo. Compreendo que aquele que não cumpre os preceitos de D’us deve ser considerado um pecador. Portanto, aquele que permite que sua filha se case com um não- judeu, é um pecador. “Tua filha não darás a seu filho...”, certo?
Por outro lado, já que a família da minha namorada não cumpre sequer um décimo dos preceitos da Torá, por que deveria cumprir o preceito que proíbe sua filha de se casar comigo? Se não permite o nosso casamento, mas no shabat viaja de carro para um churrasco, qual a lógica?
Acho que desta vez exagerei na quantidade de perguntas. Minhas desculpas. Se você não puder respondê-las, não se preocupe. Eu entenderei.
Saudações,
Juan
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 03 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Antes de tudo, gostaria de lhe dizer que, no que se refere a mim, você nunca exagerará em perguntas que são feitas com o objetivo de aprender. Portanto, vá em frente!
Quanto à contradição entre o não cumprimento dos preceitos por parte da família da sua namorada e a insistência em cumprir o preceito de não permitir que sua filha se case com um não-judeu, não posso falar em nome deles, como já lhe disse no início do nosso diálogo. Tudo o que posso dizer é que ninguém é perfeito: Há pessoas mais sensíveis à importância de certos preceitos e insensíveis a outros. Isso se deve, muitas vezes, a costumes e pressões sociais. Há preceitos que as pessoas não consideram tão importantes porque a sua transgressão é reversível. Por exemplo: Quando alguém viaja no shabat, não está abrindo mão da opção de não viajar no próximo shabat. A “ruptura” não parece tão severa. Ademais, a mudança de atitude e de comportamento depende totalmente de cada pessoa. No caso de casamentos mistos, porém, trata-se de uma transgressão que não é facilmente reversível, e não depende exclusivamente dos pais. No momento em que a filha se casa com um não-judeu, mesmo que depois se arrependa dessa transgressão, há outro ser humano — às vezes mais do que um (filhos) — envolvido, com sentimentos, opiniões e certamente laços afetivos... O caminho “de volta para casa” torna-se, de fato, muito difícil...
Um abraço,
Eliezer
O DIÁLOGO COM JUAN
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 14 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Acabei de voltar de viagem e não encontrei mensagens suas. Algum motivo para isso?
Um abraço,
Eliezer
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 14 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Eliezer:
Como vai?
Para onde você viajou?
Não escrevi ultimamente porque estive muito ocupado no trabalho.
Quero lhe contar algo engraçado...
No outro dia, minha namorada leu uma parte da nossa correspondência, e sorriu ao ler aquele trecho em que você diz que não conhece a família dela. A fim de esclarecer o mistério, quero lhe contar (com o consentimento dela) quem ela é e quem é a sua família. Eles são os..........., que você conheceu este verão em Punta del Este. Paulina é o meu (virtualmente impossível) amor.
Suponho que tudo isso seja uma surpresa, certo? Você, por acaso, sabia que Paulina tem um namorado goy? Pergunto apenas por curiosidade. Talvez Mariana tenha comentado isso com você.
Caramba, que problemas eu tenho com ela! Nunca houve nenhum confronto direto, nem nada parecido. Nunca fui convidado a ir à sua casa e raramente telefono, mas mudei a minha atitude com relação à Mariana (para pior, lamentavelmente). No começo, sempre que ela atendia ao telefone e falava rispidamente comigo, eu era super simpático e lhe dizia: “Oi, Mariana. Aqui é Juan. Como vai? Tudo bem? Fico feliz em ouvir isso. Paulina está?” E ela respondia friamente: “Sim, não, sim, não, espere...”
O que é mais difícil para mim é o fato de sempre ter sido uma pessoa muito sociável... Jamais tive problemas com alguém. Em geral, desenvolvo relações intensas com as pessoas e ganho a sua amizade, especialmente em nível familiar. Passar disso para uma situação em que a família nem quer ver a minha cara em figurinhas é muito doloroso.
Você pode imaginar o que é levá-la para casa à noite, para pegar um casaco ou trocar de roupa, e ter que esperar do lado de fora, no carro, sem poder entrar? Durante esses momentos penso: “Tudo porque não sou judeu”... Sinto-me como a pior escória sobre a face da terra. Se eles sorrissem para mim e me explicassem o motivo de sua oposição ao nosso relacionamento com a mesma sabedoria que você o faz, as coisas seriam diferentes. Quando estou sozinho com meus pensamentos, olho para a janela da casa dela, vejo o movimento, e imagino que a última pessoa que eles querem ver pisando seu carpete sou eu. Só quero o melhor para Paulina, tanto quanto eles. Mas, assim como eles fazem o melhor possível, sei que também eu faço o melhor possível.
Há poucas semanas, em conseqüência do diálogo fascinante entre nós, refleti sobre muitas coisas e acabei propondo a Paulina que terminássemos o nosso relacionamento. Vou lhe contar como ela reagiu. Ela me ama muito mais do que você pode imaginar, e suas palavras refletiam os sentimentos de uma moça que ama a sua religião, mas não quer ceder às suas ordens. Não sei... D’us sabe que tentei, dei-lhe mil e uma razões coerentes para terminar o namoro, mas ela não concordou com nenhuma delas. Se ela tivesse aceitado, seria o fim da minha vida, mas, acredite, significaria ao mesmo tempo o início da vida dela. Tenho certeza de que ela não tem nenhum futuro comigo. Tal futuro não existe. A família dela nunca me aceitará, por mais que eu seja uma boa pessoa, pois sei que o problema nada tem a ver com isso. Tanto faz se for eu ou qualquer outro rapaz que não seja judeu, eles não aceitarão.
Concluindo, a história é a seguinte: Daqui a um mês fará um ano que estamos juntos. Os pais dela ainda não me conhecem pessoalmente (exceto por uma vez, quando encontramos Jaime por acaso), e não expressaram nenhum interesse em que eu ponha os pés em sua casa. Sabem que fico esperando do lado de fora, e não pretendem mudar isso (é lógico que prefeririam que eu nem estivesse do lado de fora). Tentei romper o nosso namoro, convencido de que isso seria a melhor solução para nós, mas ela morrerá se eu o fizer e ainda não tenho força suficiente para dar esse passo. Será que a solução seria simplesmente deixá-la sem ouvir a sua opinião? Acho que sim.
Não tenho dúvidas de que o sofrimento pelo qual passaremos se dissipará pouco tempo depois e, dessa forma, darei a ela a oportunidade de criar uma nova vida com alguém que seja aceito pela sua família, o que a deixará incrivelmente feliz.
Mas isso é muito difícil. Especialmente porque ela diz que não se importa pelo fato de eu não ser judeu (“Tudo bem... seria melhor... mas sei que não há outro homem melhor do que você...”, etc.). Creio que a única pessoa capaz de persuadi-la é seu primo Gustavo, com o qual mantenho excelentes relações.
É incrível. A “única coisa” que faz com que eu não seja bom para ela é a minha religião. Ela sempre brinca: “Para minha mãe, amante da cultura, o que poderia ser melhor do que um estudante de literatura?” Paulina certa vez perguntou a Mariana se ela teria preferido que a filha namorasse um judeu que fosse um desastre como pessoa, e Mariana retrucou: “Por que tenho que escolher entre um cego e um surdo-mudo?” Muito esperto.
Bem, termino hoje por aqui. Espero que, considerando o que acabei de escrever, você algum dia se coloque no meu lugar e veja como é difícil colocar na balança as leis de D’us em contraposição à natureza humana.
Um abraço,
Juan
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 15 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Li seu e-mail, e tudo o que posso dizer é: Quão afortunado é aquele que caminha com a verdade e a transparência! Refiro-me tanto a mim mesmo como a você.
Posso imaginar como tudo isso deve ser difícil para Paulina. Ela, sem dúvida, ama você muito e imagino o quanto lhe custa “rejeitá-lo” por não ser judeu. Acredite-me, eu a compreendo.
No entanto, eu lhe disse isso desde o início. Não é fácil. Não é fácil superar sentimentos somente porque D’us assim o deseja.
Posso dizer a vocês dois uma coisa: Vale a pena. Vale a pena fazer esse sacrifício, e tenho certeza de que D’us não permanecerá por muito tempo com dívidas não quitadas. Cada um de vocês encontrará sua verdadeira alma gêmea e constituirá uma família feliz, com saúde, alegria e bênçãos. É difícil, talvez impossível, visualizar as coisas agora. O amor cega. Mas vale a pena. Posso lhes dizer isso com base numa grande experiência com outros jovens que passaram por essa mesma situação.
Não façam isso em consideração à família dela. Façam isso por vocês.
Um forte abraço,
Eliezer
P.S. Creio que deve ser impossível me colocar realmente no seu lugar... Imagino que não é nada fácil para vocês. Mas se D’us pôs vocês à prova, é certo que podem superá-la.
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 22 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caríssimo Eliezer:
Como vai? Tudo bem?
Acabei de ler o artigo que você me enviou (sobre casamentos mistos) e, com a maior humildade, acho que está faltando um ponto importante. Falta o elemento social. Creio que pouquíssimos dos argumentos que você apresenta possam ser considerados argumentos verdadeiros para uma família judaica rio-platense dos dias de hoje. Seus argumentos (perfeitos e convincentes do ponto de vista religioso) seriam a salvação para muitos pais judeus. Serviriam como uma justificativa perfeita para não permitir que seus filhos ou filhas se casem com não-judeus, porém não refletiriam os seus verdadeiros sentimentos.
Eliezer, compreendo as suas crenças e respeito, do fundo do coração, a sua fé, profundamente enraizada, mas você sabe muito bem que nem mesmo um décimo dos judeus de Montevidéu pensa dessa forma. Sem falar diretamente da violação da maioria dos preceitos judaicos, sabemos que a geração atual dos pais judeus (em contraposição aos avós) nem sequer teve a oportunidade de freqüentar escolas judaicas, e carece de uma formação judaica. Na melhor das hipóteses, sabe o que lhe foi transmitido pela tradição, de pai para filho. Para lhe dar um exemplo concreto, na casa dos..., os filhos sabem muito mais a respeito da religião que seus pais, pela simples razão de terem recebido uma educação judaica (retomarei esse ponto mais tarde). Enfim, é fato que os verdadeiros motivos nem sempre têm a ver com a questão religiosa, mas geralmente com considerações sociais.
Ninguém pode fazer um estudo aprofundado sobre as relações entre judeus e não-judeus na sociedade atual. No entanto, acredite-me, há elementos bastante desagradáveis nessa relação. Do mesmo modo em que há muitos não-judeus que têm atitudes negativas com relação a judeus, eu me atreveria a afirmar que a mesma porcentagem de judeus tem essa mesma atitude com relação aos gentios. Não é minha intenção especular aqui sobre questões de racismo e intolerância, mas estou interessado em enfatizar o aspecto social. As diferenças entre judeus e gentios estão longe de estarem resolvidas. E isso tem grande peso.
Seria ousado dizer que na resistência a casamentos mistos dentro da comunidade judaica rio-platense não exista uma forte dose de discriminação, assim como seria ousado dizer que não há discriminação contra os judeus. Esse é um problema de grande peso. Penso que o judeu tem razões de sobra para não se mostrar mais aberto à sociedade que o perseguiu tantas vezes.
Esses são alguns dos fatores sociais que podem influir. Acho que, similarmente, há muitas razões adicionais que nada têm a ver com a religião. De todo modo, os argumentos que você apresenta no seu artigo são os mais nobres.
Retomando o assunto da educação, vejo que você não está contente com a educação judaica no Uruguai. Em minha opinião, é outro exemplo de que o Judaísmo atual na América do Sul se limita, cada vez mais, ao fator social do que ao religioso (observe que eu sempre me limito ao marco regional, porque não posso falar de outro que eu não conheça).
Comecei a me relacionar com um forte ambiente judaico há pouco mais de um ano. Por um lado, tenho ótimos amigos judeus que conheci na universidade. Isso me deu a possibilidade de conhecer muitas famílias com diferentes níveis de prática religiosa. Todos, naturalmente, celebram as festas judaicas e alguns freqüentam a sinagoga, mas poucos são judeus de acordo com os requisitos que você menciona no seu artigo. A maioria dessas famílias, com tendências sionistas, nem sequer tem idéia do que significa ser judeu.
Sei que existe um programa chamado..., que supostamente serve para promover o espírito sionista nos jovens, levando-os para Israel, onde permanecem por um ano. Você quer saber o que esses jovens fazem nesse período? Bem, os rapazes dedicam-se a ficar bêbados e a fumar maconha. As moças, além disso, se envolvem em relações desinibidas com jovens israelenses. Não estou especulando. Esse é o caso da maioria dos rapazes e moças judeus que eu conheço. Mas o programa... é perfeito. Considere-o dessa forma: Eles voltam fascinados por Israel. Diga-me, porém, algo: Se você é um jovem que foi reprimido durante a adolescência; que sempre “tropeçou” nas mesmas pessoas desde a pré-escola; que nunca teve nenhum relacionamento com não-judeus (como é o caso dos meus colegas de classe judeus... o ano em que ingressaram na universidade significou a descoberta de não-judeus); você é jovem e tem a oportunidade de viajar para um país distante onde ninguém o controla ou lhe diz o que deve fazer; você vive gratuitamente; seus pais lhe enviam grandes quantias de dinheiro para que você possa fazer um pequeno passeio pela Europa sempre que desejar; e não só isso, mas você também descobre as drogas, o álcool e as festas. Ao voltar, por que não acharia que Israel é o melhor país do mundo? Você então decide retornar eventualmente a Israel, e o sionismo atinge o seu objetivo. Se essa experiência de vida tão profunda tivesse ocorrido no Congo, muitos teriam ficado fascinados pelo Congo.
Insisto em dizer que a religião está deixando de ser o motivo principal das ações. É a sociedade que agora as regula.
Saudações.
Juan
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 24 de julho de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Uma vez mais, obrigado por sua última mensagem. Você me impressionou muito com sua capacidade de percepção e de análise.
Se você se lembra, eu lhe disse desde o início que não responderia como porta-voz da família da Paulina, mas compartilharia com você meus pensamentos pessoais sobre o tema.
No que se refere aos argumentos apresentados no artigo sobre casamentos mistos, é verdade que ele não reflete a opinião da maioria. Mas foi exatamente esse o objetivo — educar as pessoas (tanto os pais como os filhos) no que diz respeito aos verdadeiros motivos por que o Judaísmo se opõe aos casamentos mistos.
O ponto central não é tanto por que não devem se casar com alguém que não seja judeu, mas que na realidade não existe casamento entre um judeu e um não-judeu, assim como não existe casamento entre irmãos biológicos.
Ademais, acredito firmemente que embora a maioria dos judeus de Montevidéu se oponha conscientemente ao casamento misto por motivos equivocados, isso nada mais é do que uma manifestação de sentimentos e convicções inconscientes.
A psicologia freudiana fala muito sobre o tema do inconsciente. O Talmud já o fez há milhares de anos! Nossos sábios nos ensinam que a ligação do judeu com D’us é indestrutível. Tudo o que um judeu fizer contra essa ligação se deve à ignorância, à falta de consciência e/ou a um momento de fraqueza. Em outras palavras, se o judeu estivesse plenamente consciente das verdadeiras conseqüências negativas de seus atos e tivesse controle de si mesmo, jamais os praticaria.
O mesmo é verdade no que se refere à nossa relação com a Terra de Israel. Talvez os jovens pensem que estão encantados por Israel por que ali se divertiram... Acho que as coisas são muito mais profundas, se bem que possam não ter consciência disso... Eles possuem um vínculo de alma com Israel.
O motivo da minha preocupação com o nível da educação judaica no Uruguai hoje em dia é precisamente o fato de os jovens não receberem as ferramentas com as quais saberiam ser judeus conscientes. O produto final da educação existente é uma pessoa cheia de conflitos, que não sabe como conciliar seus valores conscientes com suas convicções e intuições inconscientes.
O judeu é crente por natureza. A educação judaica formal e não-formal que os jovens recebem tende a negar essa condição de fé inata. A educação que eles recebem se alimenta de fontes e de critérios alheios ao Judaísmo, que negam a condição especial do judeu. Ela tem por objetivo normalizá-lo e redefini-lo como um cidadão do mundo. “Somos iguais a todos os demais, embora tenhamos certos costumes diferentes, um idioma e uma terra próprios”. Isso não funciona.
Não funciona porque não somos iguais aos demais. Somos essencialmente diferentes. Temos uma missão de vida que é totalmente diferente. Possuímos uma alma que é totalmente diferente. Temos necessidades espirituais totalmente diferentes. Temos conflitos espirituais totalmente diferentes.
Acontece que muitos judeus negam abertamente a sua condição de “diferentes”, porque não sabem como defendê-la ou porque não estão dispostos a assumir as responsabilidades que isso implica. No entanto, isso não muda o fato de que “são” diferentes.
Muitos vivem suas vidas tentando se convencer de que são iguais aos seus vizinhos não-judeus. Lutam contra a sua condição especial de judeus... Até ver que seus filhos os levaram a sério e adotaram essa filosofia até suas conseqüências máximas... Querem se casar com não-judeus... E de repente, os pais se dão conta de seu próprio engano. Opa! Não somos iguais! Não estávamos falando a sério!
Muitas vezes já é tarde demais...
Por isso, acho que nossas diferentes opiniões sobre esse assunto se devam ao fato de você julgando as aparências e os sintomas. Eu vejo as coisas pelo que de fato são e não pelo que parecem ser... O judeu não quer (realmente), nem pode romper sua ligação com D’us, ainda que não esteja consciente disso.
Um abraço,
Eliezer
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 02 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Há muito tempo que você não dá sinal de vida...
Algum motivo especial?
Um abraço,
Eliezer
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 03 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Como vai, Eliezer?
Lamento não ter escrito antes, mas realmente quase não tenho tempo para nada, pois estamos em época de exames na faculdade e isso toma o pouco tempo que tenho.
As coisas logo voltarão ao normal e eu lhe escreverei sobre algumas inquietações, fruto de acontecimentos recentes.
Um abraço,
Juan
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para: Juan Garcia
Data: 15 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Como vai, Juan?
Queria lhe fazer uma pergunta:
Tenho alguns conhecidos que se beneficiariam em ler o nosso diálogo. Eu naturalmente omitiria qualquer informação identificadora, a fim de proteger o anonimato das partes. Você se importaria?
Um abraço,
Eliezer
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de agosto de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Como vai, Eliezer?
Tudo bem?
Acabei de sair de uma época bastante complicada de exames. Só queria responder rapidamente o seu e-mail, e dentro de alguns dias escreverei um pouco mais.
Não, não tenho problema nenhum em você compartilhar os nossos e-mails com outras pessoas. Pessoalmente, não acho que contribuí para o tema com algo que possa interessar a alguém. É mais do que óbvio que você jamais revelaria o nome da família da Paulina. Nessa condição, certamente, vá em frente e compartilhe o nosso diálogo com quem quiser.
Eu me encontro agora numa fase decisiva no meu relacionamento com Paulina. Os próximos dias determinarão o destino do mesmo.
Um abraço,
Juan
De: Juan Garcia
Para: Rabino Eliezer Shemtov
Data: 14 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Como vai você, caro Eliezer?
Você certamente se perguntará por que precisei me desconectar um pouco do nosso diálogo...
Você deve entender que depois da fluente troca de idéias entre nós, aconteceu um caos enorme em minha cabeça. Minhas dúvidas sobre por que Paulina e eu não deveríamos ficar juntos encontraram, de certa forma, sua resposta religiosa e também lógica. Meu questionamento com relação aos pais dela chegou ao fim, graças às suas palavras. No entanto, concordo com você: Eles não sabem como defender sua posição. A maneira correta de lidar com isso não é ignorar a minha existência. É justamente o oposto.
Entenda isso: Estamos juntos há mais de um ano. Amo Paulina (mais do que possamos imaginar) e ela me ama (mais ainda do que conseguimos imaginar). Você deve se dar conta de que, numa sociedade como essa em que vivemos atualmente, ficar junto nos leva a crer que estamos lutando pelo verdadeiro amor, etc., etc. Dar-se por vencidos seria uma derrota inaceitável.
Em resumo: Estou muito apaixonado por ela, tanto quanto ela está apaixonada por mim, e nenhum de nós duvida disso. Eu já estive envolvido em relacionamentos anteriores — Paulina também — e nunca nos sentimos tão felizes com outra pessoa. Os ingredientes que contribuem para o sucesso do relacionamento são: Limites claramente estabelecidos entre a vida cotidiana dela e a minha. O fato de ela ter um círculo de amizades totalmente diferente do meu contribui para evitar que um invada o espaço do outro. Jamais encontrei em minha vida uma mulher tão maravilhosa e inteligente. É o melhor “partido” da minha vida.
Pois bem, qual foi então o motivo do meu silêncio? Eu me convenci a tal ponto de que nós não deveríamos ficar juntos que a deixei, sem me preocupar com o que ela pensava.
Resultado: Muito sofrimento constante e ininterrupto para nós dois. Totalmente confuso, decidi voltar atrás. Pouco tempo depois, estávamos juntos novamente.
Foi então (um pouco por causa das exigências dela) que interrompi o meu diálogo com você, que enchia a minha cabeça com idéias que conduziam ao caminho correto, mas que ela não está disposta a tolerar por enquanto.
Entenda, pois, que por enquanto continuamos juntos e, se dependesse de mim, gostaria que isso fosse para sempre. Se eu tivesse que assinar algo que me comprometesse nesse exato momento, eu o faria imediatamente.
Meus amigos dizem: “Você pode deixá-la, mas não chore amanhã quando a vir com outro namorado goy...” E se isso acontecesse? Se eu estiver convencido de que judeus e cristãos não devem ficar juntos, mas ela não? De que me serviu tanta clareza?
Outra coisa que me deixa muito magoado (um assunto que você, de algum modo, sempre evita...) é a atitude dos pais dela com relação a mim. Sei que você sempre diz que não pode falar por eles. A única coisa que eu gostaria de saber é o que você pensa sobre a atitude deles. A qual atitude me refiro? Bem, há mais de um ano que a filha deles ama uma pessoa com a qual convive diariamente, que compartilha com ela infinitas horas, e mais... Entretanto, eles não demonstram nenhum interesse em me conhecer. Durante todo esse tempo em que estamos juntos, estive na casa dela uma única vez. Entrei na sala e sabia que a mãe dela estava em casa, mas ela nem veio me cumprimentar. Enquanto Paulina se trocava no quarto, fiquei na sala, derramando lágrimas pelo sofrimento provocado pela indiferença da mãe, que sabia que o namorado da filha estava na sala, mas não era digno do seu cumprimento.
Depois de um tempo, como não havia alternativa, já que ela ia sair, a mãe da Paulina passou por mim, e disse: “Oi, Juan”, deu-me um beijo, me deu as costas e saiu.
Quando alguém lhe pergunta se a filha tem namorado, o que ela responde? “Sim, mas eu não o conheço, pois me incomodaria que ele freqüentasse a nossa casa, porque é goy”.
Gostaria que você me dissesse qual seria a atitude correta que eu poderia exigir dos pais da Paulina.
Na semana passada, Paulina veio à minha casa e, como sempre, começou a chorar. Ela disse que não podia mais suportar as reclamações da mãe. Ela é uma excelente aluna. Acabou de se formar como contadora, e já está estudando para outra carreira. É responsável, superinteligente, e uma ótima pessoa. Mas acorda de manhã e vai dormir à noite ouvindo a mãe dizer que ela está destruindo a família, que é a causa do sofrimento dos pais, e que os avós irão morrer por causa dela e do seu namorado goy. Será que isso é justo?
Será que eu mereço que me deixem à porta e que a mãe me atenda ao telefone como seu fosse um ninguém? Será que o fim justifica os meios? Ensinaram-me que isso está errado.
Um abraço,
Juan
P.S. Por favor, tente não me responder com perguntas...
P.P.S. Você compartilhou nossos e-mails com alguém? Recebeu algum comentário interessante?

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 14 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Muito obrigado por seu e-mail.
No que diz respeito à sua atitude por todo o tempo em que nos “conhecemos”, não tenho senão admiração por sua inteligência, sinceridade e força de caráter. É óbvio por que Paulina gosta tanto de você.
Penso que há duas coisas que foram negligenciadas:
- O fato de eu não dialogar com ela, para lhe dar os elementos necessários para chegar às mesmas conclusões que você.
- Não conversar pessoalmente com vocês dois, em conjunto e/ou separadamente.
Embora esse meio de comunicação que usamos tenha as suas vantagens, tem igualmente as suas limitações: Impede uma comunicação fluente e pessoal. Não insisti em encontrar você pessoalmente, porque já havia feito o convite e achei que você o aceitaria se e quando tivesse vontade. Ainda podemos corrigir esses dois erros.
Voltando ao nosso diálogo eletrônico, creio que há algo muito importante que deva ser considerado. Não seria uma má idéia se vocês se casassem. Se isso apenas fosse possível. Mas o fato é que é impossível. Por mais formalidades que vocês cumpram e por mais documentos que assinem, o fato não muda. Um judeu não pode se casar com um gentio. Penso que tão logo vocês assumam isso como uma realidade inalterável, a tentação de fazê-lo desaparecerá. Repito o exemplo que lhe dei em outra ocasião. Imagine se vocês descobrissem que são irmãos biológicos. Apesar de estarem profundamente apaixonados um pelo outro, vocês se casariam? Pense um pouco sobre isso...
Você tocou num ponto muito importante. Disse que se rompessem o relacionamento, isso seria uma espécie de derrota. Será que pensariam da mesma forma se descobrissem que são irmãos biológicos? Creio que não. Achariam que tiveram muita sorte em descobrir quem são realmente. Romper esse relacionamento não implica uma derrota, muito ao contrário. É a maior de todas as vitórias. Deixe-me explicar por quê.
Nossos sábios definem como “forte” aquele que domina os seus instintos (Ética dos Pais, 4:1). Consideram-no mais forte do que um conquistador de cidades. Por quê? Aquele que governa milhares ou milhões de pessoas possui apenas um poder relativo: Ele é mais forte do que milhões de pessoas mais fracas do que ele. Por outro lado, aquele que controla os seus instintos possui uma força verdadeira e, portanto, é mais forte do que o conquistador de cidades, já que possui outro tipo de força. Por quê?
Quem é tão forte quanto esse conquistador de cidades? Ele próprio. Se pode apenas dominar aqueles que são mais fracos, mas não pode controlar a si mesmo, será ele verdadeiramente forte? Ele é fraco, simplesmente não tão fraco como os outros.
Aposto que durante o tempo em que a deixou você teve —dentro da dor — uma sensação de paz interior e enaltecimento pessoal por ter tomado a decisão certa. Como Paulina não compartilhou tal decisão com você, é claro que foi difícil resistir à tristeza e às lágrimas da pessoa que, neste momento, você tanto ama. Se ela tivesse compartilhado a decisão e essa sensação de alegria por ter conseguido superar a si mesma e fazer o que é correto, as coisas teriam sido diferentes. Ambos se sentiriam acompanhados e apoiados pela separação.
Uma pergunta hipotética: Se ela viesse e dissesse: “Juan, percebi que você tem razão. Estou disposta a acompanhá-lo nessa difícil decisão. Cheguei à mesma conclusão que você”, você não se sentiria aliviado?
De certa forma, para ela é muito mais difícil romper esse relacionamento do que para você, já que a sua decisão se basearia em considerações pessoais, ao passo que se a opção fosse dela, poderia ser atribuída à pressão dos pais. Se você decidir terminar a relação, é uma demonstração de força. Ninguém o pressionou. Se a iniciativa for dela, ela pode se sentir derrotada pela pressão. Além disso, a sua decisão de terminar o namoro baseou-se na convicção de que estava fazendo a coisa certa. Ela, por outro lado, nunca se perdoaria por ter sacrificado você pelo desejo dos pais. “Que espécie de mulher e de ser humano eu sou, se abandono uma pessoa que me ama tanto e a quem eu amo tanto apenas porque meus pais não gostam dele...?” Penso que posso entendê-la.
Creio que neste momento ajudaria se ela interviesse nesse diálogo.
Acho que ela está fazendo exatamente o que não quer fazer. Ela não quis tomar a decisão de romper o relacionamento para não ceder à pressão dos pais, e acaba tomando a decisão de prosseguir como reação a essa pressão.
Sei que Paulina é uma jovem muito inteligente. Acho que se ela pudesse se libertar das pressões externas e tomar uma decisão baseada nas suas próprias descobertas a respeito dos assuntos em questão, e não como reação a tais pressões, vocês alcançariam os resultados que verdadeiramente estão procurando...
No que se refere à minha opinião sobre os pais dela, penso que se comportam dessa maneira por causa de dor, receio e frustração, e não por raiva ou desprezo. Dor porque a filha rejeita a sua tradição, receio pelo futuro dela, e frustração por não terem conseguido lhe dar os elementos necessários para ajudá-la a compreendê-los e ser capaz de percorrer o labirinto da vida com sucesso. Parece-me que você é capaz de entendê-los. Eles não nutrem sentimentos negativos para com não-judeus. Mas isso não significa que devam, portanto, aceitar que sua filha se case com alguém que não seja judeu, abandonando a sua identidade, o seu povo, e o seu D’us. Ainda que eles sejam incapazes de articulá-lo, sentem-no em suas entranhas. Não é nada pessoal contra você. Diz respeito a ela e a eles.
Até mesmo no reino animal é instintivo deixar descendentes. É natural resistir à perda de um filho... Não quero ser repetitivo, porém, para os pais da Paulina, como os filhos da sua filha se definirão? Com qual povo se identificarão, com o do pai ou com o da mãe?
Minha resposta acabou sendo mais longa do que eu pretendia no início, mas quis atender o seu pedido, de dar uma resposta sem perguntas. Tudo bem?
Sim, eu mostrei os e-mails para outras pessoas (mudando, naturalmente, os nomes e os detalhes identificadores). Todas elas concordam com você em muitas coisas. Concordam que muitos dos seus amigos, que passam por situações semelhantes, não possuem os elementos mais básicos para tomar decisões com conhecimento de causa. Os seus argumentos e comentários são muito precisos e realçam a situação real.
Aguardo a sua resposta.
Um abraço,
Eliezer
De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 29 de setembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
SHANÁ TOBÁ! Para você e sua família (é assim que se escreve?).
Meus melhores votos para você e os seus!
Juan
De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 05 de outubro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
SHANÁ TOBÁ! Para você e sua família (é assim que se escreve?).
Vivemos numa democracia... Cada um escreve o que quiser, como quiser... Eu escreveria “Shaná Tová”.
Meus melhores votos para você e os seus!
Muito obrigado. Igualmente.
Alguma novidade na “montanha russa”?
Um abraço,
Eliezer
De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caríssimo amigo Eliezer:
Retomo hoje meu agradável contato com você, depois de passar algumas semanais infernais de fim de semestre na faculdade. As aulas terminaram na sexta-feira passada e começamos o período de exames, que irá até o fim de dezembro.
Devo confessar que agora estou um pouco constrangido. Por quê? Bem, porque depois de todo o diálogo que mantive com você, com Paulina e comigo mesmo, cheguei à conclusão de que pretendo continuar o meu relacionamento com ela. Os motivos?
Cheguei à conclusão de que é ela, e não eu, quem deve se preocupar com os aspectos religiosos, quem deve optar pela religião ou pelo relacionamento. Eu a amo muito e não a deixarei por causa do meu frágil Cristianismo. É a vez de ela decidir, e ela já o fez há muito tempo: Quer ficar comigo. O que estou dizendo, em outras palavras, é o seguinte: Imagine se eu a deixasse hoje pelos motivos religiosos que ambos conhecemos. Ela não quer terminar o relacionamento e estaria disposta a se casar amanhã. Ela jamais suportaria separar-se de mim (palavras dela...).
No artigo sobre casamentos mistos que você me enviou, você conta uma história sobre uma moça que estudava a fim de se converter, e no final dos seus estudos, disse ao noivo: “Você acha que eu me casaria com alguém que estava disposto a se casar com um não-judeu?...” Você se lembra? Pois bem, isso de certo modo se aplica ao meu caso. Depois de ler muito sobre o tema e entender parcialmente alguns assuntos que eu antes ignorava, ela sem dúvida é uma “daqueles” que pretende se casar com um não-judeu. O que isso significava na história? Alguém que não é digno de se casar com um judeu? Alguém que é judeu apenas de neshamá? Não sei. Enfim...
O fato é que se eu a deixasse por minhas convicções, seria como prestar uma homenagem a alguém que adora a sua religião, seria uma espécie de presente, algo que eu sei que ela apreciaria mais tarde, e não creio que esse seja o caso da Paulina. Ela é bem madura, estudou muito sobre a sua religião, “esbarrou” em judeus durante toda a vida, conhece mais a respeito do tema do que a maioria dos jovens da sua idade, e mesmo assim está tomando essa decisão... Eu não estudei nem um décimo do que ela estudou, não conheço sequer a milésima parte dos judeus que ela conhece, nem mesmo sou judeu... Você acha que eu poderia saber o que é melhor para ela?
Agora que tomei a decisão de seguir adiante no nosso relacionamento, receio que não mais encontrarei em você um aliado. Talvez você perca todo o interesse nas nossas conversas... Não sei. Mas imagino que você continuará tentando me convencer, certo?
“Mudando” de assunto, a mãe da Paulina ganhou o meu ódio a tal ponto que, se eu deixasse Paulina, tornaria a mãe dela a pessoa mais feliz do mundo. Acredite-me, não é o que ela merece.
O meu relacionamento com Paulina já tem mais de um ano, e vi seus pais poucas vezes. Na casa dela todos sabem que eu existo, sabem perfeitamente por que não vou lá e, apesar disso, sorriem diariamente como se nada tivesse acontecido. Talvez eu veja tudo de forma tão horrível porque na minha casa uma coisa dessas nunca aconteceria.
A prova explícita de como a família da Paulina se comporta mal é a seguinte: Minha mãe, que é uma católica devota, vai à igreja todos os domingos, etc. — certamente não quer para seu filho uma moça judia. É óbvio que ela preferiria que eu me casasse com uma moça cristã, com as bênçãos da Igreja. Contudo, ela adora Paulina, a abraça sempre que vem à nossa casa, a convida para comer conosco, e a trata como todo ser humano merece ser tratado. Minha mãe não permite que seus desejos pessoais, para si mesma e para mim, interfiram no meu relacionamento com Paulina.
Por outro lado, temos a mãe da Paulina, que é judia pour la galerie, como se diz, para se exibir. Ela transforma a nossa relação num inferno... Creio que a questão ficou bem clara, não é?
Em minha casa não é admitido nenhum tipo de discriminação. Meus amigos de infância, cujas casas eu freqüentava diariamente, eram de diversas origens étnicas e religiosas. Talvez por essa razão eu não possa conceber a discriminação explícita que ocorre na casa dos.... É uma atitude deplorável e condenável, que não tem nenhuma justificativa. Insisto nesse ponto, já que eu nunca soube qual a sua opinião a respeito, e gostaria de entendê-la.
Um abraço,
Juan
P.S. Se eu lhe pedisse para conversar com a mãe da Paulina, para fazê-la compreender que eu mereço no mínimo uma explicação, que ao fechar a porta na minha cara ela não vai conseguir nada, que eu não sou nenhum pária, que mereço um mínimo de respeito..., você o faria?

De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Obrigado por seu e-mail. Você diz:
No artigo sobre casamentos mistos que você me enviou, você conta uma história sobre uma moça que estudava a fim de se converter, e no final dos seus estudos, disse ao noivo: “Você acha que eu me casaria com alguém que estava disposto a se casar com um não-judeu?...” Você se lembra? Pois bem, isso de certo modo se aplica ao meu caso. Depois de ler muito sobre o tema e entender parcialmente alguns assuntos que eu antes ignorava, ela sem dúvida é uma “daqueles” que pretende se casar com um não-judeu. O que isso significava na história? Alguém que não é digno de se casar com um judeu? Alguém que é judeu apenas de neshamá? Não sei. Enfim...
Significa simplesmente, que ao dar-se conta do que era realmente viver como um judeu, e tendo adotado essa vida para si, ela percebeu que seria incapaz de compartilhá-la ou de constituir uma família judaica com alguém que se preocupava tão pouco com a questão, que estivesse disposto a se casar com uma pessoa que nada tinha a ver com o Judaísmo. Por exemplo, se você estudasse o Judaísmo a ponto de estar convicto de sua legitimidade, e optasse por adotá-lo como sua própria identidade e modo de vida, você se sentiria compatível com uma moça que não se preocupa absolutamente com nada disso, e está disposta a sacrificar tudo pelo amor (próprio)?
O fato é que se eu a deixasse por minhas convicções, seria como prestar uma homenagem a alguém que adora a sua religião, seria uma espécie de presente, algo que eu sei que ela apreciaria mais tarde, e não creio que esse seja o caso da Paulina. Ela é bem madura, estudou muito sobre a sua religião, “esbarrou” em judeus durante toda a vida, conhece mais a respeito do tema do que a maioria dos jovens da sua idade, e mesmo assim está tomando essa decisão... Eu não estudei nem um décimo do que ela estudou, não conheço sequer a milésima parte dos judeus que ela conhece, nem mesmo sou judeu... Você acha que eu poderia saber o que é melhor para ela?
Não vejo as coisas dessa forma. Não se trata de respeitar alguém, mas de fazer o que é correto. É óbvio que é difícil esperar que você se importe com isso mais do que ela, ou seja, se ela não se incomoda com a religião dela, por que você deveria se incomodar? Contudo, penso que a questão não termina aqui. Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?
Mais ainda, penso que a pergunta aqui é: Paulina está tomando sua decisão com base no que ela acredita ser correto, ou com base nos seus sentimentos, sem levar em consideração o que ela acredita ser correto? Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?
Pense bem. Por que ela tem medo ou está constrangida em discutir esse assunto comigo? Por acaso você teve algum problema em conversar comigo sobre o tema? É claro que não. Você não tinha nada para esconder, nada do que fugir. A sua relação sempre foi e continua sendo uma relação de franqueza e transparência total... Você sabe se há qualquer outro tema sobre o qual Paulina se recusaria a conversar? A preocupação, portanto, não é a de protegê-la de você, mas de protegê-la (e a você) de si mesma e do seu processo de decisão... na luta constante que todos nós temos entre a mente e o coração.
Agora que tomei a decisão de seguir adiante no nosso relacionamento, receio que não mais encontrarei em você um aliado. Talvez você perca todo o interesse nas nossas conversas... Não sei. Mas imagino que você continuará tentando me convencer, certo?
Não sou um juiz, nem tampouco o policial de D’us. Tento compartilhar meus conhecimentos com aqueles que estejam interessados ou que deles possam tirar proveito. Estarei sempre ao seu dispor para continuar a esclarecer as coisas de acordo com as minhas possibilidades. Sou um aliado da busca sincera...
“Mudando” de assunto, a mãe da Paulina ganhou o meu ódio a tal ponto que, se eu deixasse Paulina, tornaria a mãe dela a pessoa mais feliz do mundo. Acredite-me, não é o que ela merece.
Isso tampouco deveria ser um motivo para deixá-la ou para continuar com ela...
O meu relacionamento com Paulina já tem mais de um ano, e vi seus pais poucas vezes. Na casa dela todos sabem que eu existo, sabem perfeitamente por que não vou lá e, apesar disso, sorriem diariamente como se nada tivesse acontecido. Talvez eu veja tudo de forma tão horrível porque na minha casa uma coisa dessas nunca aconteceria.
A prova explícita de como a família da Paulina se comporta mal é a seguinte: Minha mãe, que é uma católica devota, vai à igreja todos os domingos, etc. — certamente não quer para seu filho uma moça judia. É óbvio que ela preferiria que eu me casasse com uma moça cristã, com as bênçãos da Igreja. Contudo, ela adora Paulina, a abraça sempre que vem à nossa casa, a convida para comer conosco, e a trata como todo ser humano merece ser tratado. Minha mãe não permite que seus desejos pessoais, para si mesma e para mim, interfiram no meu relacionamento com Paulina.
Por outro lado, temos a mãe da Paulina, que é judia pour la galerie, como se diz, para se exibir. Ela transforma a nossa relação num inferno... Creio que a questão ficou bem clara, não é?
Não creio que a intenção dela seja “complicar” o seu relacionamento com Paulina. Ela certamente o faz por outros motivos, como lhe explicarei adiante.
Em minha casa não é admitido nenhum tipo de discriminação. Meus amigos de infância, cujas casas eu freqüentava diariamente, eram de diversas origens étnicas e religiosas. Talvez por essa razão eu não possa conceber a discriminação explícita que ocorre na casa dos.... É uma atitude deplorável e condenável, que não tem nenhuma justificativa. Insisto nesse ponto, já que eu nunca soube qual a sua opinião a respeito, e gostaria de entendê-la.
Creio que já lhe dei a minha opinião a respeito disso. Não se trata de discriminação contra quem não é judeu, porém — mesmo no caso de uma família que não cumpra todos os preceitos do Judaísmo —, no caso de casamentos mistos estamos falando de uma ruptura clara e praticamente irreversível. Sua filha está prestes a romper uma cadeia que foi formada ao longo de milênios, com grande sacrifício. Ainda que você possa considerar a mãe da Paulina como judia pour la galerie, tenho certeza de que ela — como praticamente todo judeu da sua geração — fez grandes esforços e sacrifícios pessoais por ser judia. Embora ela talvez ainda não tenha conseguido superar todos os desafios com os quais se deparou isso não significa que não haja questões que a afetam clara e profundamente. Ser mais ou menos observante é uma questão de matizes. Ser ou não judeu, pertencer ou não pertencer ao mesmo povo e à mesma história e destino, é uma questão inequívoca, sem quaisquer matizes.
Talvez seja muito difícil para você imaginar até que ponto esse tema é profundo. Creio que o exemplo que você traz sobre a sua família não se aplica. A fé da sua mãe é algo pessoal dela, pelo qual ela optou. Se você não compartilha a fé dela, por que ela deveria impô-la a você? Ela optou por aquilo em que acredita e, logicamente, deveria concordar que você escolhesse aquilo no qual acredita. Além disso, mesmo que quisesse, não poderia impor-lhe as suas crenças, porque a fé é uma questão pessoal de cada um. Você acredita ou não. Se você acredita, então pertence àquela religião, e se não acredita, não pertence. Não existe, por exemplo, cristãos ateus. Estes são dois termos mutuamente excludentes. Deixe-me, porém, perguntar-lhe algo. A sua mãe aceitaria, por exemplo, que você a substituísse por outra mãe? Você certamente deve estar pensando: “Que pergunta mais ridícula!” Certo? Mas pense bem... Se ela o ama tanto, e se é tão tolerante, por que se importaria se você decidisse trocá-la por outra? Por que ela deveria se impor? Ela pode ser acusada de intolerante e discriminatória? A resposta é óbvia: Você é parte dela. Para sempre. Sangue do seu sangue. “Desconectá-lo” de si seria como arrancar-lhe um braço (para dizer pouco).
O caso da Paulina e da mãe dela é semelhante a essa pergunta “ridícula” que formulei antes. Ser judeu — para quem nasceu judeu — é uma condição que independe de sua vontade, do mesmo modo que ser filho de determinados pais não depende de desejos ou preferências. Ser judeu implica uma pertinência tão ou mais forte que os laços entre pais e filhos. É mais do que uma questão afetiva. É uma questão de conexão essencial, não circunstancial. Não é racional. Renegar a própria condição de judeu é como optar por ter outra mãe. Não é como escolher uma carreira ou adotar um estilo de vida diferente. Você já viu alguém que, calmamente, permita que lhe arranquem um braço?
Não sei se consegui expressar meu ponto de vista de forma inteligível – além do fato de você concordar com ele ou não. Se eu escrevi algo que não ficou claro, diga-me francamente.
P.S. Se eu lhe pedisse para conversar com a mãe da Paulina, para fazê-la compreender que eu mereço no mínimo uma explicação, que ao fechar a porta na minha cara ela não vai conseguir nada, que eu não sou nenhum pária, que mereço um mínimo de respeito..., você o faria?
Não sei se me compete tomar a iniciativa de falar com ela sobre isso. Tento respeitar o espaço dos outros... Se alguma vez ela tocar no assunto, lhe direi o que penso. Repare que tampouco falei com Paulina, esperando que ela concorde em conversar comigo...
Aguardo sua resposta.
Um abraço,
Eliezer
P.S. Uma pergunta: Paulina está ciente de tudo o que conversamos?
De: Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Eliezer:
Como vai?
Desculpe-me dizer isso, mas algumas das coisas que você escreveu no último e-mail me pareceram um tanto sinistras.
Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?
Independentemente das dela? Você acha que eu deveria tomar decisões que dizem respeito ao casal, independentemente?
Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?
Antes de tudo, eu gostaria de ouvir mais exemplos de situações em que é melhor escolher com a cabeça do que com o coração...
Por outro lado, estou muito ofendido por você continuar a justificar as atitudes da mãe da Paulina. Entendo que você não é juiz, nem policial, mas o que a família dela está fazendo é injustificável. Não espero que abram a porta de sua casa e me convidem para comer, oferecendo-me sua filha numa bandeja de prata. Você acha que eu não mereço que me digam, pelo menos uma vez, “Entre, sente-se, deixe-nos explicar-lhe por que não podemos permitir que você freqüente a nossa casa”? Por acaso presumem que eu já sei o motivo e, portanto, não mereço nenhuma explicação de sua parte? O fato de ser um goy e namorado de sua filha não me transforma numa pessoa indigna. Este é o erro ad hominem que os pais da Paulina estão cometendo.
Um abraço, e aguardo as suas respostas.
P.S. Afinal de contas, se você tanto insiste que é impossível deixar de ser judeu, qual o problema de ela se casar comigo? Os filhos dela serão, de todo modo, judeus. Por acaso se trata de uma questão social?
De: Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 21 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Como vai? Obrigado por seu e-mail. Você escreve:
Desculpe-me dizer isso, mas algumas das coisas que você escreveu no último e-mail me pareceram um tanto sinistras.
Quem impede você de aprender mais sobre o tema e chegar às suas próprias conclusões, com base em informações sólidas, independentemente das dela?
Independentemente das dela? Você acha que eu deveria tomar decisões que dizem respeito ao casal, independentemente?
Se você reler o que escrevi, verá que eu não me referia a tomar decisões de forma independente, porém a você chegar às suas próprias conclusões sobre o assunto e poder discuti-las com ela, se as suas conclusões não concordem com as dela.
Está decidindo com a cabeça ou com o coração? Está tomando sua decisão com lucidez?
Antes de tudo, eu gostaria de ouvir mais exemplos de situações em que é melhor escolher com a cabeça do que com o coração...
A vida está cheia de exemplos... Escolher entre estudar para um exame ou ir passear, por exemplo...
Por outro lado, estou muito ofendido por você continuar a justificar as atitudes da mãe da Paulina. Entendo que você não é juiz, nem policial, mas o que a família dela está fazendo é injustificável. Não espero que abram a porta de sua casa e me convidem para comer, oferecendo-me sua filha numa bandeja de prata. Você acha que eu não mereço que me digam, pelo menos uma vez, “Entre, sente-se, deixe-nos explicar-lhe por que não podemos permitir que você freqüente a nossa casa”? Por acaso presumem que eu já sei o motivo e, portanto, não mereço nenhuma explicação de sua parte? O fato de ser um goy e namorado de sua filha não me transforma numa pessoa indigna. Este é o erro ad hominem que os pais da Paulina estão cometendo.
Juan, em nenhum momento eu justifiquei as atitudes dela. Eu estava simplesmente tentando explicar o que a motiva. É bem possível que eles não tenham a coragem de confrontá-lo pessoalmente, porque não sabem como explicar os motivos de sua oposição ao relacionamento de vocês. É possível que nem eles saibam defini-los muito bem. Veja, eu não tive nenhum problema em discutir esse assunto com você, sob todos os aspectos. Se eu apoiasse atitudes discriminatórias, você acha que eu me daria ao trabalho de lhe responder? Não justifiquei a mãe da Paulina, assim como também não julguei Paulina... Repito: Quem sou eu para julgar, condenar ou defender alguém, especialmente sem ter antes conversado com a pessoa?
Um abraço, e aguardo as suas respostas.
P.S. Afinal de contas, se você tanto insiste que é impossível deixar de ser judeu, qual o problema de ela se casar comigo? Os filhos dela serão, de todo modo, judeus. Por acaso se trata de uma questão social?
Os filhos dela serão educados como judeus? Eles não serão também seus filhos? Você não terá, portanto, o direito de educá-los a ser como você? Sua mãe não terá a vontade e o direito de educá-los de acordo com a religião dela? Nesse momento você está pensando em filhos “virtuais”. Na prática, porém, é uma história totalmente diferente... Falo de experiência, com base em muitos casais que conheço.
Juan: Faltou seu abraço no fim deste e-mail. Espero que não tenha sido intencional. Quero repetir o quanto respeito e admiro a sua sinceridade e inteligência. Se em qualquer momento nesse diálogo algo que eu tenha dito ofendeu você, foi totalmente não intencional, e eu lhe peço desculpas. Pretendo apenas ser honesto, para que você possa entender melhor esse assunto que é tão complexo. O que complica as coisas ainda mais é o fato de não ter discutido isso com Paulina ou com os pais dela. Talvez isso seja uma vantagem, porque assim, o que quer que eu diga é objetivo, independente de qualquer caso específico. Que diferença realmente faz se a mãe da Paulina é hostil ou agradável? É essa a questão? Entendi que a sua preocupação principal era com a questão em si, não com uma análise do comportamento da mãe da Paulina. Foi só por sua insistência que falei sobre ela e suas atitudes.
Um abraço,
Eliezer
De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 29 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro Juan:
Aguardei ansiosamente a sua resposta ao meu último e-mail.
Não sei se você está dando um tempo para digeri-lo, ou se ainda está aborrecido comigo...
Se o estiver digerindo, esperarei com paciência. Se estiver aborrecido comigo, gostaria de sabê-lo, para esclarecer as coisas.
Um abraço,
Eliezer
De:Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 30 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Caro amigo:
Como vai?
Antes de tudo, quero lhe dizer que jamais fiquei zangado com você. Peço-lhe mil desculpas se o meu último e-mail fez com que você pensasse isso.
A verdade é que tenho dificuldade em compreender por que você justifica certas atitudes das pessoas. Isso é tudo. Mas eu jamais me zangaria com você por causa disso, pois eu me tornaria tão intolerante quanto os outros...
Eu entendo o seu ponto de vista, e nunca ficaria aborrecido por algo assim. Não respondi antes porque estou bastante ocupado com exames e não tenho muito tempo para nada. Lamento tê-lo feito esperar. Não foi essa a minha intenção. Uma vez mais, mil desculpas.
Ontem foi um dia bastante incomum. Ousei ficar à noite na casa da Paulina, e o dia terminou com a mãe dela fazendo um escândalo na sala de jantar, perguntando aos gritos se eu iria ficar ali por mais tempo... Foi horrível. Procuro constantemente tratar bem os pais da Paulina, ser exageradamente amável com eles, e a mãe dela reage dessa maneira... Retomo o mesmo assunto de sempre... Compreendo o motivo da angústia dela, mas não podemos viver segundo a lei de “o fim justifica os meios”.
De todo modo, estou desolado, mais do que nunca, com a vida...
Um abraço,
Juan
De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 30 de novembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Antes de tudo, quero lhe dizer que jamais fiquei zangado com você. Peço-lhe mil desculpas se o meu último e-mail fez com que você pensasse isso.
Nenhum problema. Que alívio!
A verdade é que tenho dificuldade em compreender por que você justifica certas atitudes das pessoas. Isso é tudo. Mas eu jamais me zangaria com você por causa disso, pois eu me tornaria tão intolerante quanto os outros...
Explicar não significa justificar. Justifico a oposição a casamentos mistos. Não justifiquei a atitude da mãe da Paulina. Tentei apenas compreender e explicar por que ela age assim.
Eu entendo o seu ponto de vista, e nunca ficaria aborrecido por algo assim. Não respondi antes porque estou bastante ocupado com exames e não tenho muito tempo para nada. Lamento tê-lo feito esperar. Não foi essa a minha intenção. Uma vez mais, mil desculpas.
Não faz mal. Valorizo muito o nosso diálogo, e é por isso que fiquei um pouco ansioso ao pensar que poderia perdê-lo... Além disso, respeito você muito para permitir que um comentário meu magoe você, sem querer...
Ontem foi um dia bastante incomum. Ousei ficar à noite na casa da Paulina, e o dia terminou com a mãe dela fazendo um escândalo na sala de jantar, perguntando aos gritos se eu iria ficar ali por mais tempo... Foi horrível. Procuro constantemente tratar bem os pais da Paulina, ser exageradamente amável com eles, e a mãe dela reage dessa maneira... Retomo o mesmo assunto de sempre... Compreendo o motivo da angústia dela, mas não podemos viver segundo a lei de “o fim justifica os meios”.
Juan, por que a atitude da mãe da Paulina é tão importante? A questão em si não é mais importante? Você escreveu num dos últimos e-mails que chegou à conclusão de que se Paulina — com toda a sua educação judaica, etc., etc., — não se incomodava, por que você deveria se importar com as leis da religião dela mais do que ela própria? Boa pergunta. Entendo a partir disso que se ela chegasse à conclusão de que 1) a religião dela o proíbe; e 2) ela não quer renegar a sua religião — então você entenderia e aceitaria plenamente a decisão dela de romper o relacionamento. Isso significa, então, que o relacionamento continua simplesmente porque ela não entende e/ou não concorda com o que o Judaísmo diz a esse respeito. Sendo assim, você não deveria ser o primeiro a insistir que ela fale comigo (por e-mail ou pessoalmente, em particular ou com você), para ver se ela realmente sabe, compreende e deseja as conseqüências do que está fazendo...? E você também não deveria lhe dizer que ela precisa entrar nesse diálogo totalmente aberta à possibilidade de que talvez, como resultado dele, ela possa mudar de opinião, e que você a apoiará nessa decisão (porque o que lhe interessa é se casar com uma mulher que sabe quem ela é e o que está fazendo, e não uma mulher que não sabe quem é e desconhece as implicações dos seus atos)?
Estou lhe dizendo isso porque acho muito provável que, no futuro, ela se dê conta de certas coisas que ignora neste momento, e é muito mais fácil conviver com uma mulher que quis (ou quer) se casar com você, do que com uma mulher arrependida de tê-lo feito... Compreendo que ela está muito apaixonada por você. Será que isso é uma vantagem? Ou será que ela nem mesmo quer cogitar sobre a possibilidade de deixá-lo porque o ama tanto e isso a deixa cega? Ela obviamente não tem medo que eu a insulte ou a ameace. O que ela provavelmente mais receia é a possibilidade de que eu possa convencê-la, ou seja, que eu lhe apresente argumentos melhores ou mais objetivos que os dela. Se ela de fato o ama tanto, não deveria ser a primeira a querer se convencer de que está fazendo a coisa certa, e de que será a sua esposa fiel e feliz para sempre? Não é assim? Por mais que ela consiga se esquivar de mim agora, nada impede que amanhã ela se depare com outra pessoa que a faça ver aquilo que hoje ela opta por ignorar. O que vocês farão então?
Entendo que a atitude da mãe da Paulina possa ter muito peso. Você “não quer lhe dar o prêmio que ela não merece...” Porém, penso que vocês não deveriam permitir que isso influenciasse. Vocês devem distinguir entre uma batalha específica e entre a guerra em geral. Não faz sentido perder a guerra da vida pessoal para vencer a batalha específica com a mãe da Paulina. Ademais, o ódio pela mãe dela não é um estímulo saudável para nutrir o relacionamento do casal.
Há outro ponto importante que deve ser levado em consideração. A diferença entre o namoro e o casamento é enorme. Há casais que vivem juntos durante anos e se divorciam logo depois do casamento. Por quê? Um dos motivos é que enquanto não estiverem casados, cada um sabe que pode sair do relacionamento sempre que quiser. Ninguém deve nada a ninguém. Entretanto, depois do casamento — mais ainda se tiverem filhos —a tensão psicológica é completamente diferente. “Como foi que me meti nessa confusão?” Imagino que para você pareça agora impossível que tal dia chegue. Mas se não acontecesse, seria um milagre. É natural que as coisas sejam assim. A atração que se sente por alguma coisa que não se tem é diferente da atração por algo que se tem (e inclusive se tem a obrigação de manter e de agüentar)...
Um casamento feliz não é aquele em que isso não acontece. Ao contrário, um casamento sólido é aquele no qual há as ferramentas com as quais é possível confrontar tais situações, à medida que surjam. Pertencer a religiões, povos e culturas diferentes e incompatíveis, não ajuda a superar as diferenças, ao contrário...
Você não acha que a melhor coisa para ambos seria que cada qual constituísse família com alguém que fosse realmente compatível, e não apenas superficial e circunstancialmente adequado? Na primeira opção, à medida que vocês crescem pessoalmente, mais sólido fica o casamento; na segunda opção, à medida que vocês crescem pessoalmente, o casamento enfraquece, porque vocês vão descobrindo como são profundamente incompatíveis...
Escrevi mais do que pretendia, porém para mim é difícil ver alguém sofrer sem tentar ajudar.
De todo modo, estou desolado, mais do que nunca, com a vida...
Você verá dias melhores...
Boa sorte nos exames (os da faculdade bem como os da vida real...)
Um abraço,
Eliezer
De:Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 01 de dezembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Eliezer:
Algumas questões rápidas...
“... Se ela chegasse à conclusão de que 1) a religião dela o proíbe; e 2) ela não quer renegar a sua religião, então você entenderia e aceitaria plenamente a decisão dela de romper o relacionamento”.
Sem dúvida...
“Isso significa, então, que o relacionamento continua simplesmente porque ela não entende e/ou não concorda com o que o Judaísmo diz a esse respeito. Sendo assim, você não deveria ser o primeiro a insistir que ela fale comigo (por e-mail ou pessoalmente, em particular ou com você), para ver se ela realmente sabe, compreende e deseja as conseqüências do que está fazendo...?”
Creio que ela está ciente das conseqüências e as compreende, mas no balanço de sua vida, nessa fase, ela se importa mais com o que seus sentimentos lhe dizem do que com o que a sua religião dita. Paulina é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Se ela não decide romper o relacionamento, é porque não pode. Ela não seria capaz de suportá-lo.
Suponhamos que ela esteja convencida de que a melhor coisa para nós dois seria que cada qual se casasse com alguém da mesma religião. Então, a grande pergunta se repete: Se ela não tem a força necessária para romper comigo (embora saiba que isso seria a melhor coisa para nós dois...), deveria eu deixá-la, sem me importar com o que ela diz? (Espero uma resposta afirmativa ou negativa.).
“Compreendo que ela está muito apaixonada por você. Será que isso é uma vantagem? Ou será que ela nem mesmo quer cogitar sobre a possibilidade de deixá-lo porque o ama tanto e isso a deixa cega?”
Vejo que você percebe a magnitude do amor da Paulina. Se ela decidisse ignorá-lo, você acha que seria possível encontrar outro amor desse tipo “na esquina”?
Desde a minha adolescência, sempre gostei de fazer amizade com pessoas mais velhas, e percebi que muitos adultos ainda guardam um velho amor em sua alma. Muitos se arrependem de tê-lo deixado escapar... Eu não gostaria que isso acontecesse comigo.
“Entretanto, depois do casamento — mais ainda se tiverem filhos —a tensão psicológica é completamente diferente. ‘Como foi que me meti nessa confusão? ’ Imagino que para você pareça agora impossível que tal dia chegue. Mas se não acontecesse, seria um milagre”.
O dicionário Larousse que tenho na minha estante define “milagre” como: “uma ocorrência que não pode ser explicada por causas naturais e que é atribuída à intervenção divina”. Isso seria maravilhoso. Mas acredito que a expressão que você usou se adapta mais à segunda definição: “Milagre: por casualidade, que ocorre raramente”. Ou seja, que acontece... mas com pouca freqüência. Fato é que tenho uma possibilidade remota de ser feliz com a Paulina e com nossos filhos... E saber que existe uma possibilidade ínfima me deixa imensamente feliz! O risco de arruinar a minha vida é insignificante quando comparado com a felicidade de envelhecer ao lado da Paulina!
Conheço uma família da qual sou amigo há anos. O casamento é misto: ele é filho de judeus, e ela é cristã praticante. Seus filhos são estudantes brilhantes. Alguns se interessam mais pelo Judaísmo do que outros. Eu os conheço há muitos anos e posso afirmar que formam um casal muito feliz. Já conversei com eles muitas vezes sobre o meu caso, e eles constituem um exemplo de que existe a possibilidade de ser feliz num casamento misto. E como eles há milhares de outros.
Suponho que você terá muitas coisas a dizer... e espero ansiosamente a sua resposta.
Um forte abraço
Juan

De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 01 de dezembro de 2003
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Obrigado por seu e-mail. Você diz:
Algumas questões rápidas...
“... se ela chegasse à conclusão de que 1) a religião dela o proíbe; e 2) ela não quer renegar a sua religião, então você entenderia e aceitaria plenamente a decisão dela de romper o relacionamento”.
Sem dúvida...
“Isso significa, então, que o relacionamento continua simplesmente porque ela não entende e/ou não concorda com o que o Judaísmo diz a esse respeito. Sendo assim, você não deveria ser o primeiro a insistir que ela fale comigo (por e-mail ou pessoalmente, em particular ou com você), para ver se ela realmente sabe, compreende e deseja as conseqüências do que está fazendo...?”
Creio que ela está ciente das conseqüências e as compreende, mas no balanço de sua vida, nessa fase, ela se importa mais com o que seus sentimentos lhe dizem do que com o que a sua religião dita. Paulina é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Se ela não decide romper o relacionamento, é porque não pode. Ela não seria capaz de suportá-lo.
Suponhamos que ela esteja convencida de que a melhor coisa para nós dois seria que cada qual se casasse com alguém da mesma religião. Então, a grande pergunta se repete: Se ela não tem a força necessária para romper comigo (embora saiba que isso seria a melhor coisa para nós dois...), deveria eu deixá-la, sem me importar com o que ela diz? (Espero uma resposta afirmativa ou negativa.).
Em outras palavras, o que você está perguntando é: “Se nós dois sabemos que seria correto romper nosso relacionamento, mas isso é extremamente difícil para nós, como poderemos fazê-lo de uma forma saudável, feliz e indolor, sem remorsos posteriores?” Se essa interpretação da sua inquietude está correta, podemos continuar a explorar as possibilidades. Caso contrário corrija-me.
“Compreendo que ela está muito apaixonada por você. Será que isso é uma vantagem? Ou será que ela nem mesmo quer cogitar sobre a possibilidade de deixá-lo porque o ama tanto e isso a deixa cega?”
Vejo que você percebe a magnitude do amor da Paulina. Se ela decidisse ignorá-lo, você acha que seria possível encontrar outro amor desse tipo “na esquina”?
Creio que é possível, não “na esquina”, mas ao redor de si mesma. Isso exigirá, antes de tudo, uma profunda reavaliação de sua parte sobre quem ela é, de onde vem e para onde vai. Porém, uma vez mais, esse tema se torna relevante apenas depois de resolver se a minha interpretação da sua pergunta é correta...
Desde a minha adolescência, sempre gostei de fazer amizade com pessoas mais velhas, e percebi que muitos adultos ainda guardam um velho amor em sua alma. Muitos se arrependem de tê-lo deixado escapar... Eu não gostaria que isso acontecesse comigo.
Como mencionei no e-mail anterior, desejar algo que não se tem não é a mesma coisa que desejar algo que se tem. Com muita freqüência, um “velho amor” nada mais é do que uma realidade “virtual”, produto da imaginação de que “a minha vida com ela teria sido diferente”. Tudo isso não passa de pura especulação. Creio que em muitos desses casos, as pessoas confundem o amor profundo e verdadeiro com a paixão superficial...
Conheço uma família da qual sou amigo há anos. O casamento é misto: ele é filho de judeus, e ela é cristã praticante. Seus filhos são estudantes brilhantes. Alguns se interessam mais pelo Judaísmo do que outros. Eu os conheço há muitos anos e posso afirmar que formam um casal muito feliz. Já conversei com eles muitas vezes sobre o meu caso, e eles constituem um exemplo de que existe a possibilidade de ser feliz num casamento misto. E como eles há milhares de outros.
Penso que é muito difícil saber o que realmente acontece na vida privada dos demais e no seu foro mais íntimo... As pessoas, em geral, tendem a dissimular que tudo está bem... Ademais, como você sabe que tipo de experiências e de educação judaica ele teve? Talvez a identidade judaica dele esteja muito latente e as coisas não se apresentem como um conflito. Ou talvez ele tenha optado pelo subjetivo em vez do objetivo. Há uma quantidade infinita de variáveis possíveis. As estatísticas reais da vida, no entanto, demonstram um índice impressionante de divórcios (apesar do fato de as pessoas preferirem esconder a verdade...). Você acha que todas elas se casaram com pensamentos e sentimentos distintos dos seus? É claro que há muitos casamentos felizes. Eu simplesmente apresentei o tema para ilustrar que o que se sente antes do casamento – sentimentos esse que servem para ocultar problemas reais ou potenciais – não é (necessariamente) uma indicação real do que se sentirá depois do casamento... Depois do casamento fica-se com a realidade objetiva, sem a anestesia do amor inicial. E para superar essa situação, são necessárias ferramentas adequadas a fim de alcançar um amor mais profundo e autêntico. Um peixe e um pássaro podem viver juntos enquanto estiverem tranqüilos sobre a superfície do lago, sem manifestar as suas diferenças. Contudo, no momento em que surgir uma situação em que cada um responda de acordo com a sua natureza irreprimível, tudo muda... Estar casado e compartilhar filhos é muito mais do que uma simples amizade.
Suponho que você terá muitas coisas a dizer... e espero ansiosamente a sua resposta.
Há muito mais para se dizer, mas creio que por hoje é suficiente. Aguardo a sua resposta e, por enquanto, um bom fim de semana...
Um abraço,
Eliezer
De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 01 de julho de 2005
Assunto: Minha namorada judia
Juan: 
Só um alô para saber como vai você.
Um abraço,
Eliezer

De:Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 02 de julho de 2005
Assunto: Minha namorada judia
Caro Shemtov:
Respondo ao seu e-mail para retribuir a sua incrível perseverança. Ignorei por muito tempo os seus e-mails pelo simples fato de não ter nada para dizer. Acredite-me, eu realmente prezo o seu interesse, mas ainda desconheço o seu verdadeiro motivo. Gostaria que você me explicasse. Tenho certeza de que não tem nada a ver com sua amizade com relação a mim; sejamos realistas, não existe um vínculo tão forte entre nós.
Talvez seja o vínculo com a Paulina, a quem você quer ajudar por meio de um diálogo comigo, ou talvez seja simplesmente a sua religiosidade que o impulsiona a se empenhar incansavelmente para fazer o melhor pela causa judaica no mundo. Gostaria muito de acreditar que o motivo que impediu que você deixasse de se interessar pelo tema, decorridos tantos meses desde o nosso primeiro e-mail, é o seu interesse pessoal por mim. Esclareça essa minha dúvida, por favor.
Deixe-me colocá-lo a par do que aconteceu na minha vida desde a nossa última correspondência. Em nível profissional me sinto muito realizado e satisfeito, já que ganho a vida fazendo o que gosto. Mas o meu coração está destruído. Meu relacionamento com a Paulina chegou recentemente ao fim. Receio que ao lhe contar isso a sua preocupação conosco termine, já que a ameaça da assimilação diminuiu no que concerne a nós. Desejo de todo o coração que não seja assim.
Ainda que a história com a Paulina esteja longe de terminar, a verdade é que estamos separados há alguns meses, e apesar de procurarmos soluções, não conseguimos voltar a ficar juntos. Os motivos são muitos e variados, e embora eu ainda sinta que a amo como no primeiro dia, ela não está mais segura disso. Não é que ela sinta que não me ame, ela simplesmente não tem certeza que me ama. Há muitas coisas que desgastaram o nosso relacionamento, levando-nos a um ponto em que não queremos mais ficar juntos.
Nossos sentimentos minguaram por razões claras para nós dois. O elitismo incrivelmente retrógrado de que padece a sociedade judaica à qual a Paulina pertence, destrói por completo as esperanças de sermos cem por cento felizes como um casal de religiões distintas. Enfatizo a sociedade judaica à qual a Paulina pertence. Não quero fazer generalizações no que diz respeito a todos os judeus do mundo, porque é uma realidade que desconheço. Depois da longa relação entre nós, consegui entender certas coisas que assustariam qualquer um. Os goys do mundo não conhecem, Graças os D’us, o elitismo professado por essa sociedade. Eu poderia até mesmo escrever um livro sobre isso. Argumentar que o goy discrimina indiscutivelmente o judeu seria cair na falácia do “você começou”, e não faz com que deixe de ser inaceitável que os judeus se conduzam da mesma forma.
A minha relação com a Paulina foi se desintegrando pela falta de apoio familiar na casa dela. Como todo mundo previa, eles acabaram me aceitando, no sentido de permitir que eu freqüentasse a sua casa e dando fim à sua hostilidade manifesta, mas era evidente para a Paulina que os pais não apoiavam o nosso relacionamento. Ela jamais teve a coragem de admiti-lo aos seus avós, nem tampouco permitiu que eu freqüentasse livremente o seu círculo social. A verdade é que estamos separados há vários meses, e os pais da Paulina nem se deram conta disso. A partir disso você percebe como eu raramente telefonava para ela, e como era incomum eu freqüentar a sua casa. Não porque eu não o quisesse fazê-lo, mas por causa das atitudes de rejeição que eram evidentes.
Depois de vários anos, qualquer pessoa, inclusive os pais da Paulina, podiam ver que ela era a mulher mais feliz do mundo por estar ao meu lado. Tivemos uma relação incrível e bela. Éramos, potencialmente, um casal maravilhoso. Porém, era totalmente desagradável imaginar um futuro em que as duas famílias não conseguiriam manter uma relação entre si, um futuro no qual eu me sentiria eternamente rejeitado por uma sociedade que nos veria como parias de ambas as religiões.
Os pais da Paulina, ao vê-la feliz, deveriam ter dado preferência felicidade dela, e não à sua. Mas não o fizeram; eles continuaram alimentando a esperança óbvia de que, algum dia, tudo terminaria e que a Paulina se casaria, como provavelmente acontecerá, com um judeu, filho de alguma família amiga, com dinheiro, que lhe daria o que eles consideram importante. Eles pautaram o destino da Paulina de acordo com os seus próprios valores, e não os dela.
Se ela, aos vinte e dois anos, não se incomodava com nossas diferenças de origem religiosa, os pais deveriam ter respeitado isso. Se o que é bom para alguém a quem amo se opõe aos meus interesses pessoais, eu mentirei sobre as minhas preferências, para que a outra pessoa possa desfrutar do que é com para ela. Essa é a minha compreensão da verdadeira religiosidade. Como o pai que mente ao filho, elogiando o desenho horroroso que ele fez na escola.
Paulina disse que a situação ideal teria sido aquela em que os pais ficassem tão empolgados quanto ela sobre o nosso futuro casamento. Paulina acabou me enganando sobre a sua vida, não me lavando aos casamentos dos amigos e parentes, dando a desculpa de não ter um convite para mim, quando na realidade o motivo era a presença dos avós nas festas. A Paulina nunca perdeu a vergonha de estar comigo. A comunidade judaica a forçou a ter vergonha de me amar. Os valores que pregam faziam-na sentir constantemente que o seu amor era um crime, que era um erro. Esses valores judaicos são antivalores. Para uma pessoa como a Paulina, erros não são permitidos. Ela não os permite. Concordo com a idéia de evitar casamentos mistos, porém quando um relacionamento é praticamente inevitável, aquele valor deve ser rapidamente substituído por um desejo pela felicidade dos filhos. A comunidade se converte em individualidades conjuntas.
Não incentivem o casamento misto, mas não arruínem a felicidade dos que decidem ir adiante. É necessário evitá-lo, na medida do possível, mas é errado destruir os que já começaram. Seria como pretender abortar todas as gestações indesejadas. É óbvio que se deve evitar que as adolescentes engravidem, mas depois que isso acontece, a família deve dar todo o seu apoio. Imagine se a família decidisse fazer com que a filha grávida se sinta miserável e culpada. Um namoro feliz é semelhante ao período da gestação: algo está sendo gerado. Existe a possibilidade de induzir um aborto, mas a que preço? Confio em que você saberá entender os meus argumentos, e sei que me responderá com inteligência e compreensão.
Um abraço,
Juan

De:Rabino Eliezer Shemtov
Para:Juan Garcia
Data: 03 de julho de 2005
Assunto: Minha namorada judia
Juan:
Ainda desconheço o verdadeiro motivo do seu interesse. Gostaria que você me explicasse.
Em primeiro lugar, obrigado por responder. Fiquei muito surpreso quando você interrompeu, de repente, o nosso diálogo, sem nenhuma explicação. Outro dia reli a nossa correspondência, e decidi fazer um novo contato com você.
Por que dediquei tanto tempo e esforço à nossa correspondência? Confesso que, em grande parte, foi por motivos egoístas. Fiquei muito impressionado com a sua forma de apresentar as coisas, e vi em você um interlocutor com quem valia a pena conversar sobre temas tão importantes como os que abordamos. Creio que você e eu desenvolvemos um belo roteiro para um grande sucesso de cinema, certo?
Sim, existia um elemento importante – se não o motivo mais forte – de querer contribuir com algo para a causa judaica. Isso vai muito além da relação particular entre vocês. O fato de você demonstrar tanto interesse em saber gerava em mim o interesse em esclarecer (ou, pelo menos, tentar). Em conseqüência de todo esse diálogo, é lógico que sinto um apreço por você.
Receio que ao lhe contar isso a sua preocupação conosco termine, já que a ameaça da assimilação diminuiu no que concerne a nós.
Estarei à sua disposição para esclarecer tudo o que eu puder com relação a qualquer assunto no qual você estiver interessado. Como eu disse no início do nosso diálogo, a minha responsabilidade não é simplesmente impedir que um judeu faça o que não deve, mas também que um não-judeu faça o que não deve. Ou seja, a minha responsabilidade não começa e termina com a comunidade judaica, mas se estende à sociedade como um todo. Sinto, portanto, que o nosso diálogo recém começa.
O elitismo incrivelmente retrógrado de que padece a sociedade judaica à qual a Paulina pertence, destrói por completo as esperanças de sermos cem por cento felizes como um casal de religiões distintas. Enfatizo a sociedade judaica à qual a Paulina pertence. Não quero fazer generalizações no que diz respeito a todos os judeus do mundo, porque é uma realidade que desconheço. Depois da longa relação entre nós, consegui entender certas coisas que assustariam qualquer um.
Concordo com você que se trata de um tema complexo. Gostaria de assinalar, no entanto, que muitas das atitudes que você viu não são resultado da cultura judaica, mas de um grande desconhecimento dos valores judaicos. Há muita confusão no que concerne ao significado de ser judeu, e as conseqüências dessa ignorância são gravíssimas. Certamente isso me dói tanto ou mais que a você.
Pautaram o destino da Paulina de acordo com os seus próprios valores, e não os dela. Se ela, aos vinte e dois anos, não se incomodava com nossas diferenças de origem religiosa, os pais deveriam ter respeitado isso. Se o que é bom para alguém a quem amo se opõe aos meus interesses pessoais, eu mentirei sobre as minhas preferências, para que a outra pessoa possa desfrutar do que é com para ela. Essa é a minha compreensão da verdadeira religiosidade. Como o pai que mente ao filho, elogiando o desenho horroroso que ele fez na escola.
Entendo perfeitamente o que você quer dizer, mas há outra maneira de ver as coisas. Há situações em que a pessoa não se encontra nas melhores condições para tomar decisões corretas. Quando se está apaixonado ou atraído por alguém, é muito difícil tomar decisões que impliquem o afastamento desta pessoa. A pessoa está cega de amor, perde a sua objetividade, e a responsabilidade de ajudá-la recai sobre os amigos e parentes. Nesse caso, pesam também a lei e a tradição judaicas. É o referencial que nos guia. Ainda que os pais da Paulina não façam uso desse referencial todos os dias e em todas as esferas de sua vida, isso não invalida as ocasiões em que optam em fazê-lo. Em outras palavras: eles erram quando não se comportam de acordo com a Torá, e não quando se comportam de acordo com ela.
A comunidade judaica a forçou a ter vergonha de me amar. Os valores que pregam faziam-na sentir constantemente que o seu amor era um crime, que era um erro. Esses valores judaicos são antivalores. Para uma pessoa como a Paulina, erros não são permitidos. Ela não os permite. Concordo com a idéia de evitar casamentos mistos, porém quando um relacionamento é praticamente inevitável, aquele valor deve ser rapidamente substituído por um desejo pela felicidade dos filhos.
Casar-se fora da religião é uma espécie de traição, além de constituir uma grave transgressão da Torá. Como se pode pretender que uma felicidade baseada numa transgressão tão flagrante seja aceita? Por que você acha mais importante sacrificar o bem-estar comunitário pela felicidade individual do que vice-versa?
A comunidade se converte em individualidades conjuntas.
Não entendi esta frase.
Não incentivem o casamento misto, mas não arruínem a felicidade dos que decidem ir adiante.
Esta não me parece uma proposta justa. Se o casamento misto é algo proibido, por que aceitá-lo mesmo quando nele se encontre a felicidade? Não se trata meramente de uma questão de preferências pessoais...
É necessário evitá-lo, na medida do possível, mas é errado destruir os que já começaram. Seria como pretender abortar todas as gestações indesejadas. É óbvio que se deve evitar que as adolescentes engravidem, mas depois que isso acontece, a família deve dar todo o seu apoio. Imagine se a família decidisse fazer com que a filha grávida se sinta miserável e culpada. Um namoro feliz é semelhante ao período da gestação: algo está sendo gerado. Existe a possibilidade de induzir um aborto, mas a que preço?
A mesma Torá que proíbe realizar abortos (salvo nos casos em que levar a gestação a termo ponha em risco a vida da mãe) proíbe a realização de casamentos mistos. Nem todas as gestações são comparáveis com a gestação da vida humana.
Confio em que você saberá entender os meus argumentos, e sei que me responderá com inteligência e compreensão.
Atendi às suas expectativas?
Um abraço,
Eliezer
P.S. Nunca lhe perguntei, mas sempre fiquei intrigado. Como foi que você me encontrou?
De:Juan Garcia
Para:Rabino Eliezer Shemtov
Data: 03 de julho de 2005
Assunto: Minha namorada judia
Obrigado por sua dedicação, Eliezer. Agradeço sinceramente, mas embora eu concorde cem por cento que o nosso diálogo se pareça com um filme de sucesso, é impossível que estejamos de acordo. A sinopse é boa, mas o desenvolvimento das idéias não é compatível. Apesar de ter recebido uma educação cristã, atualmente, depois de tantas decepções com a minha religião e com a de outros, eu praticamente não acredito em nada que esteja escrito. Você, por outro lado, é um exemplo magnífico de fé e devoção à Torá, e isso nos transforma em indivíduos com pensamentos opostos e incompatíveis. Nosso diálogo foi possível por causa da nossa forma lógica similar de pensar e de analisar as coisas, porém os nossos valores são essencialmente diferentes.
Para mim, a Torá não é um ponto de referência para nada. Para você, é tudo. Não posso aceitar convenções baseadas em um livro ao qual não atribui nenhum valor, além daquele conferido à opinião ou à crença de quem o escreveu (ou inspirou). Admitir que tais valores são corretos implicaria em assumir que os meus são errados. A Paulina também reconhece que não acredita em mais nada que esteja relacionado à fé judaica. Se ela se casasse comigo, estaria condenada por seus pares a uma vida de frustrações. Isso seria considerado justo aos olhos de D’us? D’us prefere uma pessoa que é fiel à Torá, mas infeliz, a uma pessoa que, ao trair a Torá, vive uma vida feliz e plena?
Imagino que você responderá que nenhum judeu pode viver uma vida feliz e plena que não estiver de acordo com a Torá. Acredite-me, deve haver milhares de casos que provam o contrário. Você afirmaria que nenhum judeu assimilado morreu feliz sabendo que viveu sua vida de acordo com seus sonhos e expectativas?
Talvez você acredite que essa vida poderia ter sido melhor se ele a tivesse vivido de acordo com a Torá. Mas a grande diferença é que você crê que uma vida vivida com sacrifícios que beneficiam outros, mais do que a si próprio, é uma vida que valeu a pena, e é nesse ponto que discordamos. Eu faço sacrifícios diariamente, que deixam outras pessoas mais felizes do que eu, mas essa felicidade alheia faz com que eu me sinta melhor.
É por isso que considero a premissa totalmente falaciosa. Ela sempre termina sendo egoísta.
Viver em prol do benefício alheio pode me deixar feliz, ou seja, em última instância, sempre se procura a felicidade pessoal.
No entanto, pensar que todos seriam felizes se vivessem de acordo com a Torá é uma mera especulação. Contudo, entendo que você deve acreditar nisso, porque suponho que a sua fé se nutre dessa idéia.
Os valores que alimentam as nossas respectivas decisões e nos fazem crer nelas são essencialmente diferentes. Penso que você e eu podemos entender um ao outro, porém jamais estaremos de acordo. Se bem que concordar não seja o objetivo.
Caro Eliezer, esse mundo em que vivemos está certamente muito distante do que você quer que ele seja. Acredite-me, ele também está muito longe de ser o mundo que eu desejo.
Um abraço,
Juan
P.S. Consegui o seu e-mail por intermédio de um site judaico da Internet.

De:























